quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Lição 07 - Tudo Posso Naquele que me Fortalece



O REAL SENTIDO DO "TUDO POSSO NAQUELE QUE ME FORTALECE


Como crente e leitor, já vi, li e ouvi as mais variadas e absurdas afirmações e interpretações acerca da Bíblia e do seu texto. Algumas são apenas desvios doutrinários, outras são flu­tuações teológicas, enquanto outras são verdadeiras blasfêmias. Já li que Adão, por exemplo, quando estava no paraíso, voava como qualquer ave; que houve uma raça pré-adâmica, descendente ninguém sabe de quem; que a Terra ficou deformada em consequência da queda de Lúci­fer; que Davi e Jonas eram homossexuais assumidos; que José do Egito possuiu quatro túnicas; que Saul nunca foi rei, mas apenas príncipe; que Paulo, o apóstolo, era cego; que os seres viventes de Ezequiel eram, na verdade, extraterrestres; que Jesus teria casado com Maria Madalena; que Jesus não conquistou a salvação na cruz, mas no inferno; que Jesus precisou receber a natureza de Satanás quando morreu por nossos pe­cados e que por isso necessitou nascer de novo; que Deus não conhece todo o nosso futuro; que a Bíblia não é a palavra de Deus, mas apenas a contém; que mulher não vai para o céu, porque ali seremos como os anjos e não existe anjo fêmea, mas somente macho; que as mulheres só serão salvas se receberem um espírito de varão; que Jesus não nasceu em Belém, mas em Jerusalém; que Jesus tem cerca de l,80m de altura; que o mundo acabaria em 1843, 1844, 1914, 1918, 1920, 1975, 1988, 1994, 2000, 2007, 2012, etc.; que a trindade são nove em vez de três; que não precisamos mais orar, mas determinar; que Deus vai transferir para a igreja toda a riqueza do mundo; etc., etc.

Paulo realmente disse o que dizem que ele disse?

O que todas essas interpretações têm em comum? O que as faz semelhantes? Sem dúvida alguma é a forma descontextualizada de en­tender a Bíblia. São interpretações que não levam em conta os prin­cípios básicos de interpretação da Bíblia. Em outras palavras, nem a hermenêutica nem tampouco a exegese bíblica nortearam a construção desses argumentos doutrinários. Stanley J. Grenz (2007, p. 66) esclare­ce que a hermenêutica se preocupa "com o entendimento dos papéis e dos relacionamentos singulares entre o autor, o texto, e o público-leitor original e o posterior".[1]
Em palavras mais simples, uma interpretação correta das Escrituras deve levar em conta seu contexto histórico-social.[2] Quando isso não é feito, abre-se a porta para as mais fantasiosas interpretações do tex­to bíblico. Um exemplo moderno desse tipo de interpretação pode ser encontrado no sentido que tem sido atribuído às palavras do apóstolo Paulo em Filipenses 4.13.

Vejamos o texto bíblico no seu contexto:

Ora muito me regozijei no Senhor por, finalmente, reviver a vossa lembrança de mim; pois já vos tínheis lembrado, mas não tínheis tido oportunidade. Não digo isto como por necessidade, porque já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido e sei também ter abun­dância; em toda a maneira e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura como a ter fome, tanto a ter abundância como necessidade. Posso todas as coisas naquele que me fortalece. Todavia, fi­zestes bem em tomar parte na minha aflição. E bem sabeis também vós, ó filipenses, que, no princípio do evangelho, quando parti da Macedónia, nenhuma igreja comunicou comigo com respeito a dar e a receber, senão vós somente. Porque também, uma e outra vez, me mandastes o neces­sário a Tessalônica. Não que procure dádivas, mas procuro o fruto que aumente a vossa conta. Mas bastante tenho recebido e tenho abundância; cheio estou, depois que recebi de Epafrodito o que da vossa parte me foi enviado, como cheiro de suavidade e sacrifício agradável e aprazível a Deus. O meu Deus, segundo as suas riquezas, suprirá todas as vossas necessidades em glória, por Cristo Jesus. (Fp 4.10-19).

Aqui estão as palavras que tem sido o carro-chefe do triunfalismo neopentecostal: "Posso todas as coisas naquele que me fortalece (Fp 4.13). Essas palavras foram escritas pelo apóstolo Paulo e endereçadas à igreja de Filipos por ocasião de sua segunda viagem missionária (At 16.6-40). G. F. Hawthorne (2008, p. 57) detalha que

Paulo veio a Filipos em consequência de uma visão que teve quando es­tava em Trôade. Ele viu "um macedónio" e ouviu-o dizer: "Passa à Ma­cedónia, vem socorrer-nos!". Imediatamente após a visão, Paulo e seus companheiros abandonaram a tentativa de ir para a Bitínia, e em vez disso, decidiram ir à Macedónia, concluindo que Deus os chamara para ali pregar o evangelho (At 16.9,10). Segundo o relato de Atos, o primeiro convertido ao cristianismo em Filipos foi uma mulher, Lídia. Embora fosse pagã, Lídia era uma adoradora de Deus, pois se sentira atraída pelos elevados ideais da religião judaica (At 16.14). Mas, quando ouviu Paulo anunciar o evangelho, como Lucas disse, o Senhor lhe abriu o coração, ela pôs sua fé em Jesus Cristo e junto com sua casa recebeu o batismo (At 16.14,15). Essas pessoas se tornaram o núcleo da Igreja de Filipos e, quando se reuniram na casa de Lídia, demonstraram grande bondade em sua generosa hospitalidade a Paulo e seus companheiros, persuadindo-os a se juntar àquela casa e ali se hospedar.[3]

Os estudiosos da Bíblia estão de acordo que o apóstolo endereçou essa carta à igreja de Filipos por ocasião de seu aprisionamento em Roma. Mas o que essas palavras de Paulo significam não tem tido o mesmo consenso entre os evangélicos. O sentido mais popular dado a ela expõe mais presunção do que confiança; mais triunfalismo do que uma verdadeira fé. Fora do seu contexto, o entendimento que lhe é atribuído é que o crente pode possuir o que quiser, já que é Deus quem lhe garante isso. "Tudo posso" ganhou o sentido de "te­nho posse". Passa, então, a ser usado como um mantra que garante a conquista de bens materiais seja em que condição for. Mas será esse o real sentido desse versículo?

Paulo e a adversidade

Como já vimos, uma das regras básicas dos princípios de interpre­tação da Bíblia é a análise do contexto da passagem que se está estudan­do. A grande maioria dos erros doutrinários surge por conta da violação desse princípio. O texto ora em estudo não foge a essa regra.
Quando alguém usa as palavras de Paulo para justificar uma vida em total saúde e riqueza e isenta de problemas, evidentemente que está fazendo uso indevido do pensamento do apóstolo. Isso por uma razão bastante simples — antes de declarar sua total suficiência em Cristo, o apóstolo diz: "Sei estar abatido e sei também ter abundância; em toda a maneira e em todas as coisas, estou instruído, tanto a ter fartura como a ter fome, tanto a ter abundância como a padecer necessidade" (Fp 4.12). Somente após afirmar que passou por situações mais adversas nas quais viveu em escassez e em outras nas quais experimentou abundância é que ele diz poder todas as coisas naquEle que o fortalecia. Ao estudar exaustivamente as palavras de Paulo em sua carta aos filipenses, o erudi­to William Hendriksen (2005, p. 593) destacou que

Paulo não é nenhum presunçoso para proclamar: "Eu sou o capitão da minha vida". Nem tampouco é um estoico que, confiando em seus pró­prios recursos, e supostamente imperturbável ante o prazer ou dor, busque com todas as suas forças supor, sem a menor queixa, sua irremediável necessidade. Conhece (pessoalmente) tanto as alegrias quanto as aflições, e aprendeu a permanecer contente. Seu contentamento, porém, tem sua razão em um outro, além de si mesmo. O verdadeiro Manancial ou Fonte da suficiência espiritual de Paulo está mencionado no versículo 13. E essa fonte jamais secará, não importa quais forem as circunstâncias [...] aque­les que rejeitam a Cristo não podem compreender como um cristão pode permanecer calmo na adversidade e humilde na prosperidade.[4]

Dizer, portanto, que Paulo "deu a volta por cima" é forçar a Escritura a dizer uma coisa que ela não diz. Paulo não serve como exemplo de alguém que começou pobre e terminou rico. Paulo nun­ca se preocupou por estar por baixo e também nunca se preocupou em ficar por cima. Paulo começou seu ministério fazendo tendas, que era um trabalho duro (At 18.3), e terminou em uma prisão em Roma (Fp 3.12; At 28.30). A prosperidade do apóstolo não depen­dia da abundância ou escassez de bens materiais, mas da sua sufici­ência em Cristo. Hendrikson resume .as palavras do apóstolo nesse contexto como segue:

1. Viver em circunstâncias de apertura
O apóstolo de fato sabia o que era passar necessidade, pelo que ve­mos nas seguintes passagens: At 14.19; 16.22-25; 17.13; 18.12; 20.3; capítulos 21—27; 2 Coríntios 4.11; 6.4,5; 11.27,33. Ele sabia o que era fome, sede, jejum, frio, nudez, padecimentos físicos, tortura mental, perseguição, etc.

2. Ter fome
Fome e sede são com frequência mencionadas juntas (Rm 12.20; 1 Co 4.11; 2 Co 11.27; cf. como anseio espiritual: Mt 5.6).

3. Ter carência
O apóstolo, com frequência, não tinha o necessário. Sua falta de conforto era tanta, que sua situação chegava à mais Ama penúria. Toda­via, nenhuma dessas coisas o privou de seu contentamento.
4.  Ter fartura
Antes de sua conversão, Paulo era um fariseu preeminente. O fu­turo se lhe divisava brilhante e promissor. Paulo possuía abundância, e isso de várias maneiras. Todavia, ele tinha carência do tesouro mais precioso: a paz centrada em Cristo.[5]

Alegria na tristeza!

Acerca desse contentamento paulino que deve servir de exemplo para o cristão, John Piper (2003, p. 238,239) observou que

o caminho do Calvário com Jesus não é um caminho sem alegria. E uma via dolorosa, mas profundamente feliz. Quando escolhemos os prazeres transitórios do conforto e da segurança, e não os sacrifícios e sofrimento do trabalho missionário, evangelístico, de ministério e amor, estamos nos privando da alegria. Rejeitamos as fontes cujas águas nunca secam (Is 58.11). As pessoas mais felizes do mundo são as que experimentam o mis­tério de "Cristo em vós, a esperança da glória" (Cl 1.27), satisfazendo seus anseios mais profundos e libertando-os para poderem estender ao mundo as aflições de Cristo, por meio dos seus próprios sofrimentos.

Essas palavras de Piper são mais bem compreendidas quando as vemos à luz do contexto da carta de Paulo aos filipenses. Os intérpretes denominam a Epístola aos Filipenses de a "mais alegre" do Novo Tes­tamento. De fato encontramos passagens nessa carta paulina que com­provam essa verdade (Fp 2.18; 4.4-6). Não devemos esquecer que essa carta é denominada de "epístola da prisão", pelo fato de o apóstolo tê-la escrito durante seu período de encarceramento. Todavia, o que mais impressiona é que Paulo demonstrava contentamento mesmo sofrendo perseguição e rejeição (Fp 4.14; 1.7,13,17). O que fica claro é que a felicidade cristã não depende de circunstâncias externas, mas revela um estado de espírito que está em paz com Deus.
Para o apóstolo, a sua prisão estava sendo uma fonte de bênçãos para o progresso do evangelho da mesma forma que a sua liberdade havia sido (Fp 1.13,14). O que importava naquele momento não era uma conquista pessoal, mas ser Cristo Jesus engrandecido pelo seu tes­temunho, mesmo que este fosse dado de dentro de uma masmorra. Não vemos em Paulo um escapismo triunfalista que nega o sofrimento por meio da confissão positiva do tipo "tudo posso, tudo posso!". Tampou­co o vemos lamentando por Deus haver permitido tal situação. O que prevalece é o contentamento em tudo! Somente pessoas amadurecidas na fé são conscientes de que a alegria espiritual pode brotar em meio ao sofrimento (2 Co 12.10). Quando fazemos uma análise sobre o espinho na carne de Paulo (2 Co 12.1-10), descobrimos, por exemplo, que:

Estava dentro do plano de Deus - "foi me posto", v. 7;
Produz desconforto - "para me esbofetear", v. 7;
Produz humildade - "não me exalte"; Incita à oração - "três vezes pedi ao Senhor", v. 8;
Deixa-nos sensíveis para as coisas espirituais "Então Ele [Deus] me disse", v. 9;
Revela a graça de Deus - "a minha graça te basta", v. 9;
Molda-nos - "o poder se aperfeiçoa na fraqueza", v. 9;
Faz-nos sentir prazer onde antes só havia dor — "sinto prazer nas fraquezas", v. 10.

Por sua vez, R. C. Sproul (1999, p. 305,306) comenta que

às vezes, a presença da dor em minha vida traz o beneficio prático de me santificar. Deus trabalha em mim através da aflição. Por mais desconfor­tável que a dor possa ser, sabemos que as Escrituras nos dizem constante­mente que a tribulação é um meio pelo qual somos purificados e conduzi­dos a uma dependência mais profunda de Deus. Há um benefício a longo prazo que presumivelmente perderíamos não fosse pela dor que somos chamados a "suportar por um pouco". As Escrituras nos dizem para su­portar por um pouco, porque a dor que experimentamos agora não pode ser comparada com as glórias reservadas para nós no futuro. Do outro lado, o prazer pode ser narcótico e sedutor, de modo que quanto mais o apreciamos e mais o experimentamos, menos conscientes nos tornamos de nossa dependência e necessidade da misericórdia, auxílio e perdão de Deus. Prazer pode ser um mal disfarçado, produzido pelo Diabo para nos levar à ruína final. Essa é a razão por que a procura do prazer pode ser perigosa. Quer experimentando dor ou prazer, não queremos perder Deus de vista, e nem a necessidade que temos dEle.

A prosperidade dos humildes

Fica bem claro na Epístola aos Filipenses que o segredo do conten­tamento de Paulo é resultado de sua dependência do Senhor. As suas ca­rências levaram-no a abandonar o orgulho, que era marca de seu antigo viver, para com humildade buscar no Senhor suprir suas necessidades, tanto materiais com espirituais (2 Co 11.18-28).
Geralmente a prosperidade exibida hoje no meio evangélico expri­me mais uma atitude de orgulho do que de humildade. O "tudo posso" passou a significar o desvendamento de um segredo que torna aquele que possui sua chave capaz de conquistar o que quiser. Possuir uma casa já não satisfaz, é necessário possuir uma mansão. Possuir um carro 1.0 pode ser um sinal de pobreza; é necessário, portanto, possuir um 4x4 off road. Ser pastor de uma igreja pequena é um testemunho contra a prosperidade; portanto, faz-se necessário pastorear uma grande cate­dral. Estamos na época dos pastores pop stars e das mega igrejas! Não se está afirmando aqui que possuir esses bens seja errado ou pecado, mas a atitude e o objetivo com que se possui podem estar.
Não há como negar que a teologia de filipenses se contrapõe a tudo isso. A competição por status que contamina hoje tanto leigos como cléri­gos é duramente combatida por Paulo: "Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo" (Fp 2.3). Não podemos concordar com uma prosperidade que fomenta o orgulho. O “tudo posso” que nos esvaziou de tudo.

Jesus Cristo, nosso exemplo máximo de humildade

Por outro lado, para Paulo, o maior exemplo de humildade não era ele, mas Cristo Jesus (Fp 2.5). Para que sua lição ficasse bem clara, o apóstolo passa a relatar sua compreensão teológica da encar­nação do Verbo de Deus. Jesus, mesmo sendo Deus, humanizou-se assumindo a forma de servo (Fp 2.6,7). A encarnação não diminuiu sua divindade, mas acrescentou a sua humanidade. Ele não perdeu seus atributos divinos, mas ao assumir a forma de servo passou a viver os limites vividos pelos homens. O relato lembra a passagem do Evangelho de João em que o Senhor, orando, diz: "E, agora, glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse" (Jo 17.5). Como, pois, demonstrar ostentação diante dos homens e de Deus se o Filho de Deus, mesmo sendo Rei, se tornou servo, e mesmo sendo rico se fez pobre (Fp 2.6; 2 Co 8.9)?



Prosperidade na caridade

"E peço isto: que a vossa caridade aumente mais e mais em ciência e em todo o conhecimento" (Fp 1.9). A palavra "caridade" nesse texto é a tradução da palavra grega ágape, cujo significado básico é amor. Todavia, o termo grego pode ser traduzido também como benevolência e boa von­tade. Ao traduzir ágape por caridade nessa passagem bíblica, a tradução ARC põe em destaque o caráter generoso dos filipenses. Caridade aqui tem como sinônimo generosidade e não significa de forma alguma que alguém é salvo pelas obras (Ef 2.8). Os filipenses haviam se sensibilizado com a situação de carência do apóstolo e por isso resolveram ajudá-lo (Fp 4.15). O modelo de prosperidade pregado por Paulo soa muito diferente daquele que é adotado hoje. Prosperidade no atual contexto significa "in­dependência". Ê por isso que vemos os constantes apelos do tipo "Venha conquistar sua independência financeira". Paulo era próspero e feliz, mas dependeu da ajuda de seus irmãos e demonstrou satisfação por isso.
E interessante analisarmos o "tudo posso" (Fp 4.13) do apósto­lo à luz do que ele diz em Filipenses 4.11. A palavra contentar-me (ARC) nesse versículo traduz o termo grego autarkes. Essa palavra possui como significados na língua original, dentre outros: indepen­dente de circunstâncias externas; contente com a sua sorte ou fortuna, com os recursos que possui, ainda que limitadíssimos.[6] Paulo havia aprendido a ser contente com tudo ou sem nada. Na filosofia estóica, a palavra era usada para se referir ao homem que aprendera a não depender de ninguém. Os estoicos eram famosos por fazer a felicidade depender deles mesmos e não de fatores externos.[7] Todavia, o pensamento de Paulo desloca esse centro de dependência que se fixa no próprio ho­mem, conforme o pensamento dos estoicos, para colocá-lo em Cristo. Não há dúvida de que essa era a razão de o apóstolo demonstrar gra­tidão ao filipenses por eles permitirem serem instrumentos de Deus para abençoá-lo. E por isso que Paulo recebe essa ajuda dos filipenses como sendo um sacrifício agradável e aprazível a Deus (Fp 4.18). Essa gratidão pela ação dos filipenses foi sem dúvida alguma a principal motivação da carta que lhes foi enviada.

Unidade e prosperidade

Dentre as muitas recomendações do apóstolo à igreja de Filipos, encontramos esta: "Rogo a Evódia e rogo a Síntique que sintam o mesmo no Senhor" (Fp 4.2). Um fato de fácil percepção na carta aos filipenses é que a felicidade se fundamenta em relacionamentos. Relacionamento vertical e horizontal; com Deus e também com o próximo (Fp 2.1). Qualquer teologia que pregue a prosperidade ge­nuinamente bíblica deve levar em conta a figura do outro. Não existe igreja próspera se por dentro ela está fragmentada. A prosperidade se consolida na unidade. Pensando nisso, Paulo conclui essa carta com um pedido pela unidade da igreja.[8]
Por outro lado, Paulo alerta os filipenses: "Guardai-vos dos cães, guardai-vos dos maus obreiros, guardai-vos da circuncisão!" (Fp 3.2). Uma igreja feliz e próspera é aquela que não somente se man­tém coesa por dentro, mas também se guarda das intrusões externas. Os eruditos têm observado que, ao chegar nesse ponto, a carta aos filipenses muda de tom. Segundo a obra Dicionário de Paulo e suas Cartas,

Paulo agora começa um penoso ataque àqueles que subvertem os fili­penses — as pessoas que são inimigas da cruz de Cristo. Ele se opõe a qualquer influência que eles possam ter tido, com a afirmação da auto­ridade dele próprio baseada não em posição, mas em sacrifício [...] não pelo valor dele mesmo, mas pelo valor extraordinário de Jesus Cristo (Fp 3.2-21).

Os judaizantes eram uma ameaça constante à igreja nos dias de Paulo, e hoje os modismos e heresias ameaçam da mesma forma. Deve­mos lembrar que a prosperidade do cristão também acontece no nível doutrinário. Quantos crentes demonstram muita prosperidade material, mas estão contaminados pelo fermento doutrinário? Há saúde físi­ca, mas não espiritual.
A Epístola aos Filipenses não ensina a doutrina da prosperidade nos moldes que está sendo divulgada hoje. O "tudo posso" do apóstolo Paulo revela mais dependência do que independência. Paulo era um homem dependente de Deus e por isso aprendeu a não moldar a sua vida espiritual pelas circunstâncias do momento. Cristo era o centro de sua felicidade e satisfação. O mesmo Deus que o fortalecia para viver em abundância, era o que o fortalecia quando vivia em escassez. Tudo podemos naquEle que nos fortalece!




[1] GRENZ, Stanley. Dicionário de Teologia Bíblica. São Paulo: Editora Vida, 2007.
[2] Paulo Anglada, ao escrever sobre a função da hermenêutica e da exegese, observa que "moderna­mente esses termos têm sido usados de forma diferente. A exegese se refere ao estudo das Escri­turas com vistas a descobrir o sentido original pretendido pelo autor; enquanto a hermenêutica designa estritamente o estudo do seu dignificado contemporâneo. Nesse sentido a exegese seria uma tarefa inicial histórica, pela qual se busca compreender o que os leitores originais entende­ram, enquanto que hermenêutica consistiria numa tarefa teológica prática e subsequente, através da qual se busca compreender a relevância da mensagem bíblica para nós, hoje, no contexto em que vivemos". Anglada ainda destaca a importância do método gramático-histórico de interpre­tação e o descreve como sendo o método que "leva em conta as pressuposições bíblicas quanto à própria natureza das Escrituras e emprega princípios gerais e métodos linguísticos e históricos que são coerentes com o caráter divino-humano da Bíblia" (ANGLADA, Paulo. Introdução à Hermenêutica Reformada. São Paulo: Editora Cultura Cristã).
[3] HAWTHORNE, G. F. Dicionário de Paulo e suas Cartas. São Paulo: Editora Paulus.
[4] HENDRIKSON, William. Comentário do Novo Testamento — Efésios e Filipenses. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2005.
[5] Idem, p. 594.
[6] G. Kittel destaca que essa "palavra é um conceito central na discussão ética do tempo de Sócrates e ainda também um termo gasto pelo uso ordinário. Na filosofia cínica e estóica denota alguém que exercita suficiência em relação às suas próprias possibilidades internas e de quem se torna um homem independente. Dessa forma suficiente em si mesmo e que não necessita de ninguém" (KITTEL, Gerhard (Hrsg.); BROMILEY, Geoffrey William (Hrsg.); FRIEDRICH, Gerhard (Hrsg.): Theological Dictionary ofthe New Testament. electronic ed. Grand Rapids, MI : Eerdmans, 1964-cl976, S. 1:466-467).
[7] Por outro lado, Wilton Nelson observa que a "ideia maior dos estoicos era "o homem sábio", o que vive conforme a natureza (ou seja, racionalmente), domina as paixões e suporta sere­namente o sofrimento. O fim supremo (sumu bem) de sua ética era a felicidade que consiste em viver conforme a virtude que é o bem. Muitas características dos estoicos foram também as doutrinas da igualdade de todas as pessoas e cosmopolitismo. O estoicismo, ainda que austero, podia adaptar-se a muitas das verdades cristãs. Muito da linguagem que Paulo usa no Areópago foi tomada do estoicismo. Contudo, os estoicos de sua época não lhe prestaram muita atenção" (Nelson, Wilton M.; Mayo, Juan Rojas. Nelson Nuevo Diccionario Ilustrado De La Biblia. electronic ed. Nashville: Editorial Caribe, 2000, c 1998).
[8]  HAWTHORNE, G. F. Dicionário de Paulo e suas Cartas. São Paulo: Editora Paulus.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Lição 06 - A prosperidade dos bem-aventurados


Uma leitura simples no Sermão do Monte nos revelará quem  são as pessoas realmente felizes. Para muitos filósofos, a felicidade é inalcançável, pois se trata de algo totalmente contingencial. Alguns são felizes por serem ricos, mas por outro lado, a posse de muitos bens não tem garantido a felicidade de muitos outros. Dentro dessa cosmovisão, a felicidade é algo extre­mamente relativo. O que tem deixado muitas pessoas felizes tem produzido tristeza em outras. Todavia, não é esse o conceito que encontramos nas bem-aventuranças pregadas por Jesus. Ele parte do princípio de que as pessoas de fato podem ser felizes! E dessa forma que introduz seu sermão (Mt 5) com a palavra felicidade. De fato, a palavra latina beatus, que deu origem ao vocábulo beatitude, traduz a expressão portuguesa bem-aventurados. No Novo Testamento grego, o vocábulo usado por Mateus é makarios, cujo significado é feliz e alegria divina e perfeita. O pano de fundo dessa palavra encontra-se tanto na literatura grega antiga como no hebraico bíblico. Para os gregos, somente os deuses realmente eram felizes, isto é, bem-aventurados. Por outro lado, o hebraico 'esher é traduzido no Salmo 1 com o sentido de quão feliz são! O sentido, portanto, é o de alguém feliz aos olhos de Deus. Observa- se ainda que na literatura grega clássica a palavra era usada para se referir à prosperidade material, mas na literatura sapiencial ela se refere a uma condição de bem-estar espiritual com Deus (SI 1.1; 32.1; 112.1). Jesus em seu sermão da Montanha mantém esse úl­timo sentido.

Marty n Lloyd-Jones (1989, p. 28) reconhece que

o grande alvo da humanidade é a felicidade. O mundo inteiro anela ob­ter a felicidade, e quão trágico é observar como as pessoas a estão pro­curando. A vasta maioria, infelizmente, busca-a de tal modo que essa busca só produz o infortúnio. Qualquer coisa que, mediante a evasão das dificuldades, meramente torne as pessoas felizes por curto prazo, em última análise só tende por intensificar a miséria e os problemas que elas enfrentam. E aí que entra o caráter totalmente enganador do pecado — sempre oferecendo felicidade, mas sempre conduzindo à infelicidade, ao infortúnio e à condenação finais. O sermão do monte, entretanto, diz que se alguém quer ser feliz, aí está o caminho certo. Realmente, somente os bem-aventurados é que são felizes. Essas são as pessoas que realmente deveriam ser congratuladas.[1]

          Subindo o monte
Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, apro­ximaram-se dele os seus discípulos; e, abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo: Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus; bem-aventurados os que choram, porque eles serão consola­dos; bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra; bem- aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos; bem-aventurados os misericor- diosos, porque eles alcançarão misericór­dia; bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus; bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus; bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus; bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem, e perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós. (Mt 5.1-12)

Os grandes contrastes: judeus e gentios; Lei e Graça
Para os intérpretes da Bíblia, Mateus escreveu seu Evangelho para os judeus. O propósito era mostrar que Jesus era o Messias ou Ungido pro- metido nas Escrituras do Antigo Testamento. A intenção era, pois, acabar com a tensão existente entre a sinagoga e a igreja.[2] A sinagoga olhava para Moisés, e a igreja, para Cristo. Quem, então, fazia parte da verdadeira co­munidade do povo de Deus? Os judeus, que eram os fiéis seguidores de Moisés, ou os cristãos seguidores de Jesus? Para Frank Stagg (1986, p. 90),

Mateus afirma a validade contínua da Lei, tão importante para os fariseus. O que o aparta deles é a sua declaração de que em Cristo se encontra uma melhor compreensão da Lei (5:21-48; 9:13; 12:3,5,7; 15:3-14; 16:6,11), e o seu verdadeiro cumprimento, em contraste com o mau entendimento e uso errado da Lei por parte dos fariseus (9:4; 15:12-14; 22:18; 23;2). Mateus vê Jesus como o cumprimento da Lei, mas descobrindo sua ver­dadeira intenção, dando a ela obediência plena, expressa por fim no amor, que se dá em serviço sacrificial.[3]

Para Mateus, portanto, esse conflito não era mais necessário, vis­to que Jesus como o Messias prometido fora o único que realmente pôde cumprir a Lei na sua integralidade, tornando-se assim o legítimo herdeiro de Abraão (Gn 12.7; G1 3.16). Mateus deixa isso claro ao se referir à fundação da igreja por parte de Jesus, o ungido de Deus (Mt 16.18,19). Para Ele, a igreja, que é formada por judeus convertidos e gentios, era a verdadeira comunidade do povo de Deus (Ef 2.14,16). Não havia, pois, necessidade de tensão, visto que não houve ruptura no cumprimento das promessas do Senhor ao seu povo, mas continuidade. Para ser um abençoado e próspero não era preciso voltar a Moisés, mas permanecer em Cristo.
Por outro lado, como já foi observado, Mateus tenciona fazer um contraste entre a Lei e a Graça (Mt 5.21,22). Para Mateus, Jesus não veio para ser um novo Moisés nem tampouco implantar uma nova lei, mas para cumprir a Lei, coisa que fora impossível alguém fazer. Stagg observou oportunamente que Mateus

não apresentou Jesus como um "novo Moisés", que tenha dado uma "nova lei". Ele traçou alguns paralelos entre Moisés e Jesus, quer consciente, quer não; mas nunca apresenta Jesus como "filho de Moisés" [...] "Nova lei" não é palavra que interesse a Mateus. Ele não vê, nem poderia ver, Jesus como outorgador de uma nova lei, pois, para ele, Jesus interpreta e cumpre a Lei. Mateus está interessado com a continuidade, tanto quanto com o cumprimento.[4]

Os intérpretes da Bíblia observam que o fato de Mateus vincular, por exemplo, a genealogia de Jesus Cristo como sendo filho de Abraão (Mt 1.1) tem o propósito claro de mostrar que Ele é esse legítimo her­deiro das promessas (Gn 12.7). Por outro lado, a expressão filho de Davi, tão frequentemente encontrada em Mateus, garante a continuidade das alianças feitas pelo Senhor com o seu povo, e tem agora o seu cumpri­mento em Cristo e na igreja.
Dentro desse contexto, ser um bem-aventurado é viver da gra­ça, mesmo sabendo que ela não anula a lei (Mt 5.17-20). A graça, como um favor imerecido de Deus, dá agora condições aos filhos de Deus de viverem as exigências da Lei, mesmo tendo consciên­cia de que não estão mais subordinados aos seus rudimentos (G1 4.3; 4.9; Cl 2.8). Cristo cumpriu a Lei, e quem está nEle vive não mais a Lei de Moisés, mas a Lei de Cristo (G1 6.2), isto é, a lei da liberdade (Tg 1.25; 2.12; G1 5.1; 5.13).[5] Na Lei de Moisés, alguém para ser abençoado necessitava fazer alguma coisa; na Graça, os bem- aventurados são aqueles que não necessitam fazer coisa alguma, visto acreditarem que o Filho de Deus já fez por eles. Philip Yancey diz que a graça "significa que não há nada que eu possa fazer para Deus me amar mais, e não há nada que eu possa fazer para Deus me amar menos .
A graça põe Deus, e não nós, como o agente principal das bênçãos. Recebemos porque Ele graciosamente nos dá, e não porque somos me­recedores. A filosofia materialista, consumista e secular sempre põe o homem como o centro de tudo. Ela fomenta o egoísmo, o narcisismo e o individualismo. O escritor Charles Swindoll (2000, p. 41,42) traz uma importante reflexão sobre essa filosofia ao comentar o poema de William Ernest Henley intitulado Invicto:

Saído da noite que me cobre,
Negro como o Abismo de polo a polo,
Agradeço aos deuses, sejam eles quais forem, Pela minha alma indomável.
Ao sentir as garras das circunstâncias, Não estremeci nem gritei em voz alta. Sobre os golpes dos imprevistos Minha fronte sangra, mas não se inclina.
Para além deste lugar de rancor e lágrimas Paira apenas o horror das sombras, Todavia, a ameaça dos anos Me encontra e me encontrará destemido.
Não importa quão estreita a porta, Quão cheio de castigos o pergaminho, Sou o senhor do meu destino; Sou o capitão da minha alma.
Swindoll comenta:
Você já ouviu palavras desse tipo, não é? Se você for como eu, deve tê-las ouvido desde criança. Elas parecem tão certas, tão inspiradoras. "Basta se esforçar e você pode fazer tudo sozinho. Pode suportar o que quer que seja. Nada está fora do seu alcance, avance, então... suba mais alto! [...]
[...] O que parece tão certo é, de fato, heresia — aquela que consi­dero a mais perigosa do mundo. O que é? A ênfase no que fazemos para Deus em vez do que Deus faz por nós. Alguns se acham tão convenci­dos do oposto que argumentariam frontalmente. No geral são aqueles afirmam ser este o seu versículo favorito das Escrituras: "Deus ajuda a quem se ajuda" (que não aparece na Bíblia). Falo de matar a graça! O fato é que Deus ajuda os indefesos, os que não merecem, os que são achados em falta, os que deixam de alcançar o seu padrão. Não obstan­te, a heresia continua mais manifesta agora do que jamais aconteceu na história. Quase todos se consideram "mestres" do seu destino, "capitães" das suas almas. Essa é uma filosofia antiga gravada profundamente no coração humano. E, por que não? Ela apoia o tema predominante de toda a humanidade: o "eu".[6]

Ética e estética
Uma simples leitura do Evangelho de Mateus revela também o conflito existente entre preceitos e princípios? Teologicamente falando, os preceitos são aquilo que se referem às normas ou mandamentos, en­quanto os princípios são aquilo que dão fundamentação a esses mesmos mandamentos ou normas. Os preceitos dizem respeito à lei coercitiva ou impositiva, enquanto os princípios dizem respeito ao espírito dessa lei. Os escribas e fariseus, por exemplo, eram apegados aos preceitos ou normas, e não aos princípios ou ao espírito por trás da lei (Mt 23.23). O resultado disso é que esse apego rígido às leis ou regras do judaísmo, apenas no seu aspecto externo e não interno, criou uma religião voltada apenas para as coisas externas. É justamente por esse fato que a pros­peridade no judaísmo contemporâneo de Jesus era vista apenas por seu aspecto externo.
Esses fatos nos permitem concluir que o judaísmo nos dias de Jesus estava mais preocupado com a estética do que com a ética. A ética é a ciência da conduta, e como tal está preocupada com o com­portamento humano, enquanto a estética como ciência da arte e do belo fixa-se nas coisas como elas se apresentam aos nossos sentidos. Em outras palavras, a estética tem a ver com a imagem ou aparên­cia, enquanto a ética lida com o caráter. A ética é comportamental, enquanto a estética é sensorial. A ética olha para dentro e a estética para fora.[7] A religião nos dias de Jesus, assim também como hoje, enxerga apenas o lado externo e considera como próspero o homem que é contemplado com muitos bens materiais, e isso independen­temente do caráter.
Ao destacar o perigo de alguém viver em função de uma imagem criada, Harry Beckwith (2008, p. 46) escreveu:

Em um comercial bem conhecido, o tenista André Agassi certa vez disse que "A imagem é tudo". No mesmo ano, um possível cliente nos pe­diu para ajudá-lo a cultivar uma imagem. Nós lhe fizemos uma pergunta sobre posicionamento: "O que torna você único em seu setor?"
"Classe. Eu tenho classe", respondeu ele.
Esse comentário pareceu autoanulador. Uma pessoa "de classe" diria isso?
Ele queria que nós o ajudássemos a construir uma imagem.
Você não pode faze isso.
A pessoa por trás do verniz surge com o tempo, se não imediatamente. Quando surge, os outros não mais a conhecem por sua imagem ou essên­cia. Elas a veem como alguém que tentou enganá-las.
Isso foi tentado várias vezes.
Curiosamente, Agassi percebeu a insensatez de suas palavras. Depois de anos, mudou seu corte de cabelo mullet, deixou de usar roupas que brilhavam à luz negra e casou-se com Steffi Graf, uma mulher cujo estilo e rosto sem maquilagem sugeria desinteresse pela imagem. Ele se dedicou à caridade e à humanidade, subitamente tão aberto ao mundo quanto o alto de sua cabeça, agora careca.[8]
Definitivamente, uma pessoa não pode viver de sua imagem, mas de seu caráter. O caráter é a nossa essência, aquilo que de fato somos. Tem a ver com os nossos valores. 

Por muitos séculos a ideia de que há valores que são absolutos no cam­po ético, conforme defendiam os principais filósofos gregos, dominou o pensamento ocidental. A escola sofista fora praticamente esquecida. Isso somente até a primeira metade do século XX. Foi quando surgiu no cená­rio filosófico o alemão Friedrich Nietzsch. Nietzsch estava disposto a lutar contra tudo e contra todos para provar que não existiam valores absolutos e eternos. Ele advogava a ideia de que é o homem que valora.
[...] O pensamento nietzschiano acabou tornando-se paradigma para esta geração. Jean Paul-Sartre se tornou o seu maior porta-voz. Através das academias, o que pensou e falou esse filósofo alemão, acabou chegan­do às ruas. Uma onda de ética relativista parece dominar todos os campos da sociedade.
Na verdade, é difícil para o senso comum entender, no atual contexto, que há de fato valores que são universais. Cada um tem a sua verdade. A sua forma de julgar as coisas. A atenção não é mais voltada para princípios morais validos, mas para uma prática fragmentada e privatizada do tipo "fica na tua que eu fico na minha". Todavia, essa forma de pensar tem trazido mais danos do que bem-estar social.[9]

Letra e espírito
Por outro lado, Mateus tem um motivo a mais para destacar nas bem-aventuranças — os bem-aventurados não estavam debaixo da Lei, mas isso não significava que eles não possuíam lei alguma. Viver debai­xo de uma lei rígida, olhando apenas para o seu lado exterior e não para o seu interior, isto é, para o princípio que a rege, é legalismo. Todavia, viver sem lei alguma é antinomismo. O antinomista, do grego anti (con­tra) e nomos (lei), é justamente a pessoa que se levantou contra todo tipo de norma ou mandamento. Para Mateus, os bem-aventurados não eram nem legalistas nem antinomistas. Por um lado, eles não estavam mais de­baixo das normas e leis do judaísmo, mas por outro estavam debaixo da lei de Cristo. Com frequência aqueles que pregam o evangelho da graça caem na tentação de achar que não estão mais sujeitos a norma alguma. Charles Swindoll alertou quanto a isso:

Por causa da graça ficamos livres do pecado, da sua escravidão, da sua sujeição quanto às nossas atitudes, anseios e atos. Mas, tendo sido libertos e estando vivendo agora pela graça, podemos na verdade ir longe demais, colocar de lado todo autocontrole e levar nossa liberdade a tal extremo que passemos a servir novamente o pecado. Mas isso não é absolutamente li­berdade, isso é desregramento. Sabendo dessa possibilidade, muitos optam pelo legalismo a fim de não serem tentados a viver irresponsavelmente. Má escolha. Quanto melhor seria ter tal respeito pelo Senhor que voluntaria­mente nos reprimíssemos ao aplicar autocontrole.[10]

Mais uma vez essas palavras de Swindoll nos fazem ver o aspecto ex­terno e interno da religião. O judaísmo farisaico havia favorecido o lado externo da prosperidade e suprimido o seu lado interno. As atitudes exter­nas, como lavar copos, camas ou andar com vestes que demonstravam um viver piedoso eram práticas encorajadas (Mt 23.25,26). Ser próspero nos dias de Jesus era ser possuidor de muitos bens: "Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos: descansa, come, bebe e folga" (Lc 12.19). É evidente que o ensino de Cristo sobre as bem-aventuranças com sua ênfase nas riquezas espirituais, e não nas riquezas materiais, escandalizou os escri­bas e fariseus.

Os verdadeiramente felizes
Em seu comentário de Mateus, o judeu convertido ao cristianismo Myer Pearlman descreve as bem-aventuranças como sendo

o estado de vidas em retidão: aqueles humildes, mansos, misericordiosos, puros de coração e pacíficos. Jesus ensina não depender a felicidade por Ele oferecida do que temos ou fazemos, mas do que somos; e não pode ser importada, mas precisa nascer da alma.[11]
Atentemos para as bem-aventuranças:
Pobreza aqui não é vista como escassez de bens materiais, mas como uma carência da alma. A palavra grega ptochos fala de carência material. Todavia, para que seus leitores entendessem que o Senhor não estava aqui se referindo apenas a coisas materiais, Mateus coloca como sendo palavras de Jesus a expressão makarioi oi ptochoi to pneu- mati, isto é, bem-aventurados os pobres de espírito (Mt 5.3).15 Nesse contexto, pobre é quem tem uma carência. Os pobres de espírito, isto é, aqueles que reconhecem suas verdadeiras carências são quem de fato prosperam. O famoso gramático da língua grega A. T. Robertson (2003, p. 27) destaca que:

Lucas tem somente "os pobres", mas mantém o mesmo sentido que se encontra em Mateus. O termo aqui empregado ptochoi é aplicado ao mendigo Lázaro em Lucas 16.20,22 e sugere destituição espiritual (de ptosso, agachar-se, pôr-se de cócoras). O outro termo ptochos é mais fre­quente no Novo Testamento, e implica uma pobreza mais profunda que penes. "O Reino dos céus" significa aqui o Reino de Deus no coração e na vida. Este é summum bonum e o que mais importa.[12]

2.    Bem-aventurados os que choram (Mt 5.4)
O choro pode ser motivado tanto por algo interno como externo. Pode ser originado por um estímulo vindo de dentro como também vindo de fora. O bem-aventurado é aquele que chora tanto pela sua própria situação pessoal como também com a do mundo. Como Isa­ías, ele sente seus próprios pecados, mas também lamenta os peca­dos do seu próximo (Is 6.5). "Chorar é ter remorso pelos pecados e arrepender-se por eles, renunciar a eles e abandoná-los. Requer nossa inteira confiança na misericórdia de Deus e total empobrecimento de todos os outros recursos. Sintomas da falta desta beatitude são a petu­lância e o pecado, a falta de seriedade acerca de suas consequências e a presunção do perdão de Deus — "graça barata", como diz Bonhoeffer. Os que "choram serão consolados". O consolo é o papel principal do Messias na restauração do povo, sua terra e o estabelecimento do Rei­no, como vimos em Isaías 61. [13]

3.    Bem-aventurados os mansos (Mt 5.5)
Marvin Ervin Vicent (1886, p. 37) destaca com muita propriedade que
os significados pré-cristáos da palavra exibem duas características gerais. (1) Eles expressam conduta externa somente. (2) Eles só contemplam relações entre homens. A palavra cristã, pelo contrário, descreve uma qua­lidade interna, se relacionando principalmente a Deus.

Na literatura grega a palavra praeis (mansos) se refere a alguém que demonstra submissão à vontade de Deus, mesmo quando essa vontade parece contrariar sua vontade pessoal. Não é pieguice, mas submissão consciente à vontade do Senhor. Não é alguém que quando injustiçado questiona a vontade do Senhor ou põe nEle a culpa, mas que se sub­mete à vontade do Senhor. O contexto do Antigo Testamento revela que os mansos eram aqueles que, mesmos injustiçados, confiavam no Senhor como seu legítimo defensor (Is 41.17). Esse ponto de vista será mantido no Novo Testamento (Lc 18.1-8). A prosperidade dos bem- aventurados é medida por esse contentamento. Para O Novo Comentá­rio Bíblico com Recursos Adicionais, "refere-se novamente àqueles que são humildes diante de Deus e herdarão não somente as bem-aventuranças celestiais, mas também terão direito ao Reino de Deus que governará esta terra .

4. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça (Mt 5.6)
Os léxicos traduzem a palavra dikaiosune como estado daquilo que é e como deve ser ou ainda como uma condição aceitável para Deus. Os bem- aventurados, portanto, são aqueles que demonstram um forte desejo pela justiça divina e a buscam com anseio da alma. O bem-aventurado está consciente de que a verdadeira prosperidade só se realiza com a implanta­ção do Reino de Deus, onde a justiça é superabundante. De acordo com o Comentário Bíblico Atos

os judeus acreditavam que o Senhor também satisfaria as necessidades de seu povo no reino futuro (Is 25.6; 41.17; 55.2), assim como suprira as necessidades dos hebreus durante o êxodo, quando pela primeira vez Deus redimira seu povo (Dt6.ll; 8.7-10). Todavia, o maior objeto de sua aliança deveria ser mesmo o Senhor (SI 42.1; 63.1) e a instrução na sua retidão (SI 119.40,47,70,92,97,103; Jr 15-16).

5. Bem-aventurados os misericordiosos (Mt 5.7)
O léxico grego de Strong traduz essa expressão como: boa vonta­de ao miserável e ao aflito, associada ao desejo de ajudá-lo. No Novo Testamento, esse termo ocorre com frequência no sentido de perdão. Para se perdoar é necessário possuir um coração misericordioso. O verbo eleethesontai, aparece aqui na voz passiva e mantém o sentido de alguém que acha ou encontrou misericórdia. O seu sentido mais intensificado significa aquilo que causa dó e compaixão pela tragé­dia e refere-se também ao temor de que aquilo que ocorreu com o outro possa ocorrer também conosco.[14] O bem-aventurado tem um coração perdoador.

6. Bem-aventurados os limpos de coração (Mt 5.8)
O katharos, palavra grega traduzida por puro, é alguém limpo ou ino­cente de culpa. Barclay (1988, p. 122) comenta que

os bem-aventurados são aqueles cujos motivos estão absolutamente li­vres de mistura, cujas mentes são totalmente sinceras, que são completa e totalmente de um só propósito. Que conclamação ao autoexame te­mos aqui! Esta é a mais exigente de todas as bem-aventuranças. Quando examinamos com honestidade os nossos motivos, ficaremos humilhados, porque um motivo sem mistura de segundas intenções é a coisa mais rara no mundo. Mas a bem-aventurança é para o homem cujo motivo é límpi­do como a água pura, e com o único propósito de fazer tudo para Deus. Este é o padrão segundo o qual deveremos nos medir, de acordo com o significado desta bem-aventurança.[15]
Isso nos faz perceber que Jesus Cristo fala do puro, mas não é a pureza meramente ritual ou cerimonial. A pureza aludida aqui vem de dentro, visto se originar do coração.

7. Bem-aventurados os pacificadores (Mt 6.9)
A Peshitta, tradução em aramaico feita em 150 d.C., traduz essa expressão como os que fazem a pazl[16] O pacificador é alguém que não somente ama a paz, mas ele mesmo está envolvido no processo que conduz a ela. A Chave Linguística do Novo Testamento Grego destaca que "o primeiro sentido é que estes são os que efetuam a paz entre Deus e o homem, por meio de Cristo, pela proclamação aos homens da recon­ciliação do evangelho".[17] Há também referência aqui à paz estabelecida entre homem e homem. O Novo Comentário da Bíblia destaca que aqui "os [versículos] 10 a 12 não deixariam os ouvintes em dúvida quanto à atitude do mundo para o evangelho. O Novo Testamento sempre repre­senta o cristão como alvo de possível perseguição".[18]

8. Bem aventurados os perseguidos por causa da justiça (Mt 5.9)
A. T. Robertson (2003, p. 27) escreve que "apresentar-se como ví­tima é um artifício mui seguido. O Reino dos céus pertence somente àqueles que são perseguidos por causa da bondade, não aqueles que o são por algum mal cometido".27
Aqui se encontra um conceito sobre prosperidade que se contrapõe àquele existente nos nossos dias. Sofrer injustiça, ser perseguido e até mesmo ser martirizado por causa do Reino de Deus é considerado pelo Senhor como um sinal de bem-aventurança. Dificilmente aqueles que se consideram prósperos dentro da teologia da prosperidade admitem esse conceito.
As bem-aventuranças põem em contraste todos os modelos de prosperidade existentes, quer tenham sido vividos nos dias bíblicos quer sejam vividos hoje. A lição é que alguém próspero não é aquele que é medido por fora, mas alguém que é medido por dentro. Deus quer que seus filhos prosperem, mas que essa prosperidade reflita mais uma atitu­de interior do que simplesmente o acúmulo de bens terrenos.







[1] LLOYD-JONES, Martyn. Estudos no Sermão do Monte. São Paulo: Editora Fiel, 1989.
[2] João Batista Gomes, em seu livro O Judaísmo de Jesus, argumenta que Mateus deseja mostrar
aos seus primeiros leitores, à sua comunidade, que ela é, por seguir Jesus, o intérprete au­torizado da Lei, a forma verdadeira de judaísmo. Pelo contrário, a comunidade dos fariseus era considerada por Mateus como o Israel infiel e inautêntico. Mateus e sua comunidade, portanto, não rompem com o judaísmo, mas estão, sim, em polêmica, conflito ou disputa com os líderes da comunidade sinagogal (GOMES, João Batista. O Judaísmo de Jesus. São Paulo: Edições Loyola, 2009, p. 66).
[4]   SATAGG, Frank. Comentário Bíblico Broadman. Rio de Janeiro: JUERP.
[5]   Veja, por exemplo, os excelentes comentários a esse respeito no Novo Dicionário de Teologia
[6] SWINDOLL, Charles. O Despertar da Graça. São Paulo: Editora Bom Pastor, 2000.
[7] Uma importante diferença sobre a ética fundamentada na personalidade e a ética fundamen­tada no caráter foi feita por Stephen Covey em seu livro Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes. São Paulo: Editora Best Seiler.
[8]  BECKWITH, Harry & BECKWITH, Christine. Venda-se: A Arte de Construir uma Imagem.
Editora Best Seiler, Rio de janeiro, 2008.
[9]  GONCALVES, José. As Ovelhas Também Gemem. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.
[10] SWINDOLL, Charles. O Despertar da Graça. São Paulo: Editora Bom Pastor.
[11] PEARLMAN, Myer. Mateus — O Evangelho do Grande Rei. Rio de Janeiro: CPAD, 1995.
[12] ROBERTSON, A. T. Comentário AL Texto Griego Del Nuevo Testamento. Barcelona: Edi­torial CLIE.
[13] Comentário Bíblico Pentecostal — Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.
[14]  RIENECKER, Fritz & ROGERS, Cleon. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. São Paulo: Edições Vida Nova.
[15]  BARCLAY, William. Palavras Chaves do Novo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova.
[16]  Peshitta em Spanol— Tradución de los Antigos Manuscritos Arameos. Nashville, TN: Holman Bible Publishers, 2006.
[17]   Para Wilfried Haubeck e Heinrich Von Siebenthal, "os discípulos de Jesus, o "príncipe da
paz" [cf. Is 9.5s], difundem a sua paz, entre outras maneiras, levando adiante a sua mensa­gem de paz com Deus, mas também prevenindo divisões, amargura e discórdia e, sempre que possível, promovendo a paz. (Nova Chave Linguística do Novo Testamento Grego — Mateus a Apocalipse. São Paulo: Editora Targumim/Hagnos, 2010.