O título dessa aula desperta curiosidade porque apresenta : 'uma figura que revela alguém singular, diferente de todas as figuras de linguagem que ilustra o próprio Deus e, que, de forma teofânica, indica a Pessoa de Jesus Cristo. Era, de fato, a revelação do Cristo pré-encarnado, que corresponde com a visão de Ezequiel (Ez 1.26) e depois, no Novo Testamento, com o Apocalipse de João (Ap 1.12-20). Em todo este capítulo, “o homem vestido de linho” é o personagem central das revelações feitas a Daniel.
Temos que considerar que os três últimos capítulos desse livro trazem a última visão e revelação que Daniel teve da parte de Deus. O capítulo 10 se constitui, de fato, numa preparação para a revelação que Deus queria dar a Daniel, O capítulo 11 apresenta a visão escatológica que destaca o futuro imediato de Israel em relação às nações. Nesta visão, Daniel lembra quando chegou como exilado político na Babilônia ainda bem jovem. Os anos se passaram, e agora nos capítulos 10,11 e 12, ele era um homem com mais de 85 anos de idade. Ele lembra o nome estrangeiro Belsazar que havia recebido da parte de Nabucodonosor e que tinha por objetivo apagar a memória do seu povo e do seu Deus.
Mas Daniel, ao citá-lo em Dn 10.1, queria lembrar, também, que nada mudou na sua mente e coração em relação à sua fidelidade ao Deus de Israel. Ele provou que apesar do desterro de sua terra, nada havia mudado em relação à sua fé.
Fazendo uma digressão ao capítulo 9, Daniel sabia que o dedo de Deus dirige a história e o futuro do seu povo e nada o deteria de cumprir os seus desígnios para com o seu povo, mesmo que o mesmo tenha pecado contra o Senhor. Haviam passado os 70 anos preditos na profecia de Jeremias e, então, Deus envia o anjo Gabriel (Dn 9.21) para revelar esse futuro do seu povo. Foi uma revelação depois de muitas lágrimas e orações do profeta pelo seu povo. Daniel era um homem de lágrimas e Deus se agradava da sua humildade.
No capítulo 10, já era o terceiro ano do reinado de Ciro da Pérsia (534 a.C.), e Daniel, mesmo estando idoso, permaneceu no palácio sob a égide dos reis que sucederam Nabucodonosor. Assumiram o império Ciro, da Pérsia, e Dario, da Média. Constituindo, portanto, o Império Medo-persa. Entre 538 e 536 a.C., Ciro, o persa, concedeu um decreto que autorizava os judeus exilados na Babilônia a retornarem a Palestina, especialmente, em Jerusalém, para reedificarem o templo judeu. Porém, esse retorno aconteceu, de fato, a partir de 538 a.C. O edito real de Ciro emitido está registrado em Esdras nos capítulos 1 ao 6. Segundo a história, uma grande maioria de judeus havia aderido aos costumes estrangeiros e preferiu não voltar à sua terra, ficando na Babilônia. Porém, o sonho de Daniel era concretizado mediante sua pesquisa no livro do profeta Jeremias ao constatar que já haviam se passado os 70 anos profetizados de cativeiro. Mesmo assim, Daniel não desistiu de orar pelo seu povo e por sua cidade santa, Jerusalém. Daniel era um homem de oração. Neste capítulo algo diferente de todas as visões que tivera anteriormente acontece. Há uma manifestação teofânica quando o próprio Deus, prefigurativamente, na pessoa de Jesus Cristo, se apresenta a Daniel de uma forma ímpar e gloriosa. Há, também, no texto uma manifestação angelical em que anjos celestiais obedecem aos desígnios de Deus em favor dos seus servos na terra.
1. UMA VISÃO CELESTIAL
Conforme já estudamos em lições anteriores, Daniel é um homem de oração e também de estudo da palavra. O coração desse profeta está voltado para o seu povo, por isso ele se derrama em lágrimas pela nação (Dn. 10.2). Nos dias atuais, precisamos de homens e mulheres, que do mesmo modo que Daniel, e também o profeta Jeremias, sinta dores pelo povo. Vivemos uma época marcada pelo individualismo, as pessoas não sentem mais as dores do outro. No que tange ao cristianismo, trata-se de uma deturpação dos princípios da fé, pois esse, pela própria natureza, nos chama a nos alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram (Rm. 12.14,15). Dizem que homem que é homem não chora, mas o próprio Jesus chorou por causa da incredulidade das pessoas, e pranteou sobre Jerusalém (Jo. 11.35). Será que nós estamos sentido as dores daqueles que sofrem? Às vezes nos preocupamos apenas conosco, no máximo com nossas famílias, mas esquecemos dos outros, principalmente dos que não conhecemos. Daniel jejuou pelo seu povo (Dn. 10.3,12), demonstrou está comprometido com o avivamento da sua nação. Ele ocupou cargos importantes nos reinos aos quais pertenceu, mas não vendeu a sua alma, muito menos se esqueceu do seu povo. Há pessoas que buscam cargos públicos, mas não assumem que esse é um ministério, um serviço para os bem das pessoas, não para o enriquecimento ilícito. Foi no contexto da oração, da compaixão por Israel que Deus deu uma visão através de um anjo (Dn. 10.4-6). A manifestação daquele anjo, que para alguns se trata do próprio Cristo, esclarece Daniel em relação ao futuro, trazendo-lhe discernimento (Dn. 10.7-12). A revelação trouxe quebrantamento ao profeta, isso mostra que a revelação não serve apenas ao intelecto, e também não deve se restringir à emoção, precisa nos despertar para uma mudança de foco, uma percepção diferenciada de Deus.
2. A REVELAÇÃO DE DEUS PARA O FUTURO
Depois da oração Daniel recebeu uma resposta imediata de Deus, isso aconteceu porque o profeta se humilhou diante do Senhor. Muitos querem receber revelações de Deus, mas não se quebrantam perante Ele. Somente os que têm contato íntimo com o Senhor podem desfrutar dos seus mistérios. Daniel recebeu uma revelação em relação ao futuro, fatos que abarcavam toda a história da humanidade. Inicialmente houve uma tentativa de resistência pelo rei da Pérsia (Dn. 10.13), uma alusão a Satanás que pode se disfarçar em anjo de luz (II Co. 11.14). Isso revela a existência de uma guerra espiritual, não podemos imaginar que estamos restritos ao mundo físico, como querem defender alguns céticos. A nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas contra os principados e potestades das regiões celestes, por isso devemos estar equipados com toda armadura de Deus (Ef. 6.12). Deus providenciou um ajudador para Daniel, o arcanjo Miguel que defendeu o povo de Judá (Dn. 12.1). Não podemos afirmar com certeza se o homem vestido de linho, que se revelou a Daniel era o próprio Cristo. Alguns estudiosos, com base em Ap. 1.12-2 e Ez. 1.26 afirmam que essa foi uma teofania, uma manifestação do próprio Deus. Fato é que diante da visão Daniel perdeu as forças, não teve como permanecer de pé (Dn. 10.8). Esse anjo de Deus conforta Daniel, ao ser tocado por ele, é maravilhoso saber que podemos contar com o auxílio de anjos (Hb. 1.14). Eles não devem ser adorados, pois não passam de espíritos ministradores (Ap. 22.8,9), mas podemos pedir a Deus que nos proteja através deles (II Rs. 6.17). O anjo confortou Daniel, de igual modo, somos confortados pela Palavra de Deus, nada poderá nos resistir, se Deus é por nós, que será contra nós (Rm. 8.31,32).
3. O PROPÓSITO DA VISÃO DO CEÚ
O objetivo central da visão dada a Daniel foi confortá-lo, e mostrar que Deus está no comando das nações, e que o futuro a Ele pertence. Estamos em um mundo marcado por valores satânicos, o diabo e seus anjos estão pelejando contra a igreja. As potestades do mal querem se opor a verdade do evangelho. Mas não podemos perder as forças, assim como aconteceu com Daniel, devemos nos dobrar diante da revelação do Senhor. Não podemos perder o senso de espanto diante das grandezas das revelações. Quando Deus se revela, devemos reconhecer nosso pecado, como aconteceu com Isaias (Is. 6), bem como nossas limitações, como fez Jó (Jó. 42). O propósito da revelação é perceber a grandeza de Deus, e ao mesmo tempo, nossa pequenez. Ninguém deve se arvorar das revelações que recebeu de Deus, nem mesmo Paulo pode fazê-lo, pois recebeu um espinho na carne, para que não se gloriasse (II Co. 12.7). A revelação de Deus através dos dons espirituais, ou da Palavra de Deus escrita, objetivam nosso amadurecimento.
Ninguém deve se gloriar por causa das revelações que recebeu de Deus, antes deve agir com temor e tremor. O Deus que tocou Daniel está disposto também a nos tocar, Ele diz que somos amados e que escuta nossas orações (Dn. 10.11,12). Nada angustia tanto o homem moderno que o sentimento de desespero. Somos tentados, diante da imensidão do universo, a pensar que não passamos de um grão de areia. Mas Deus se interessa por cada um de nós (Sl. 8.4), Ele nos ama e O provou na cruz (Jo. 3.16). O fato dEle nos amar, serve de estímulo para que abramos nossas bocas e declaremos Seu amor ao mundo (Dn. 10.16,17). Esse amor divino nos dá audácia para declarar os seus feitos, e perder o medo, pois é Ele que nos diz para não temer (Dn. 10.19).
CONCLUSÃO
Não temos motivos para desânimo, mesmo quando os dias parecem ser tenebrosos, ainda que os governos estejam contrários à Palavra de Deus. O Senhor está no comando da história, ao Seu tempo haverá de julgar com reta justiça. O poder das trevas está em plena expansão, cegando o entendimento dos incrédulos (II Co. 4.4). Mas isso somente durará para sempre, devemos continuar orando, e clamando a Deus para que venha o Seu reino, e agindo para que as forças do mal não prevaleçam. Que Deus em Cristo nos abençoe com toda sorte de armas espirituais (II Co. 9.8; 10.3-5).
BIBLIOGRAFIA
SILVA, S. P. da. Daniel: versículo por versículo. Rio de Janeiro: CPAD, 2013.
CABRAL, E. Integridade Moral e Espiritual, Rio de Janeiro : CPAD, 2014.
Nenhum comentário:
Postar um comentário