sexta-feira, 18 de julho de 2014

Lição 3 - A Importância da Sabedoria Humilde

A IMPORTÂNCIA DA SABEDORIA HUMILDE
Texto Áureo Pv. 4.6 – Leitura Bíblica Tg. 1.5; 3.13-18



INTRODUÇÃO
Os cristãos do primeiro século enfrentaram perseguições, por causa disso alguns deles abandonaram a fé, e retornaram às práticas judaicas. Tiago, em consonância com o autor da Epístola aos Hebreus, conclama seus leitores a permanecerem firmes. O primeiro apela à sabedoria do alto, que se materializa na disposição para enfrentar a provação, sem negar a fé. Na aula de hoje estudaremos a respeito dessa sabedoria, que deve ser demonstrada, sobretudo, em humildade, na confiança em Deus, que é o provedor dessa sabedoria, diferente da humana ou diabólica.

1. SABEDORIA DO ALTO NA PROVAÇÃO
A falta de maturidade é uma demonstração de ausência de sabedoria, aqueles que não sabem lidar com as adversidades revelam infantilidade. Jó é um exemplo bíblico de sabedoria na provação, ao invés de blasfemar contra Deus, prostrou-se em terra em adoração, e disse: “nu sai do ventre da minha mãe, e nu partirei, o Senhor o deu, o Senhor o levou, louvado seja o nome do Senhor” (Jó. 1.20). Esse tipo de cristão está em extinção nos dias atuais, isso porque a ênfase no hedonismo está favorecendo um tipo de fé superficial, que beira à mediocridade, que não admite passar por situações adversas. Para Tiago a verdadeira sabedoria, tal como aquela expressa nos Provérbios, é prática e tem a ver com a convicção de fé, mesmo quando as coisas não acontecem do jeito que desejamos. O insensato, em Provérbios, é aquele que deixa de reconhecer suas limitações, que se fundamenta na autossuficiência, que acha que pode descartar Deus (Pv. 26.12). Existem esses até mesmo entre os que se dizem cristão, tais precisam pedir sabedoria para enfrentar os momentos difíceis, ao invés de negá-los. A palavra pistis em grego, geralmente traduzida por fé, traz nessa Epístola, a conotação de fidelidade. Para Tiago ter fé é mais do que acreditar, trata-se de uma disposição para enfrentar a provação. A demonstração da fidelidade resulta em obediência (Tg. 2.14), que não se deixa mover pelas circunstâncias (Tg. 1.6). Como fez Salomão, devemos pedir a Deus a sabedoria necessária para fazer a diferença entre a verdade e o engano (II Rs. 3.7-9). A sabedoria que o monarca recebeu era de Deus, não dos homens.  De vez em quando os cristãos são rotulados de ignorantes, e isso tem um fundo de verdade. Deus destrói a sabedoria dos sábios segundo o mundo, que fundamentam seus argumentos em axiomas. Por isso, para aqueles que não confiam nas promessas de Deus, a mensagem da cruz é totalmente absurda (I Co. 1.24-26). A loucura da pregação nos convida a confiar no Senhor, de todo coração e a não nos apoiar em nosso próprio entendimento (Pv. 3.5,6).

2. O VALOR DA SABEDORIA DO ALTO
A importância da sabedoria para o cristão é o próprio Jesus Cristo, nEle estão escondidos todos os tesouros da sabedoria (Cl. 2.3; I Co. 1.24).  O autor de Provérbios encerra em poucas palavras seu valor: “Como é feliz o homem que acha a sabedoria, o homem que obtém entendimento, pois a sabedoria é mais proveitosa do que a prata e rende mais do que o ouro [...] a sabedoria é árvore que dá vida a quem a abraça; quem a ela se apega será abençoado (Pv. 3.13,14,18). Essa sabedoria não é terrena, ou melhor não é deste mundo (Tg. 3.15), que é pura tolice, ao ser comparada com a sabedoria de Deus. A construção da torre de Babel é um exemplo do que pode fazer a sabedoria humana (Gn. 11.9). O projetos humanos tem causado muita desilusão, principalmente quando destituídos da orientação divina. A ciência tem trazido muitas contribuições para a sociedade, mas infelizmente tem servido mais para o mal do que para o bem. As grandes invenções estão a serviço dos interesses da minoria, pouco investimento tem sido feito na solução dos problemas sociais. O avanço do conhecimento não é proporcional à sabedoria, somos capazes de fazer viagens espaciais, mas não sabemos como conviver com nossos vizinhos. O otimismo da ciência, influenciado pelo Positivismo de Comte, está em declínio. A pós-modernidade é justamente a desconstrução dos valores cientificizados, até mesmo a confiança na educação está abalada. A formação acadêmica não é garantia de uma ética pautada no respeito ao próximo, sobretudo do temor a Deus, que é o princípio da sabedoria (Pv. 1.7). Para Tiago a sabedoria de Deus é espiritual, não é física, do grego psykikos, ou natural. Se diferencia também por não ser demoníaca (Tg. 3.15), os conhecimentos humanos podem ser projetos para a mentira (Rm. 1.18-25), para semear o ódio e a discórdia. A verdadeira sabedoria provém do alto, ela não é resultante apenas de lógica, mas da oração, de momentos de intimidade com Deus (Tg. 1.5). A palavra de Deus é o fundamento dessa sabedoria, pois ela nos torna sábios para a salvação (II Tm. 3.15).

3. A DEMONSTRAÇÃO DA SABEDORIA DO ALTO
A sabedoria que não provém de Deus é falsa, e se manifesta através da inveja que causa amargura (Tg. 3.14,16). A sabedoria dos homens, pautada no egoísmo, busca apenas o interesse próprio. Existem até aqueles que se ufanam da religiosidade, como faziam os fariseus dos tempos de Jesus (Mt. 6.1-18). O conhecimento bíblico acumulado não garante que o detentor é uma pessoa sábia.  Existem casos de pessoas que tem muito conhecimento, mas não são amorosos, é justamente o amor que equilibra o conhecimento, e revela sabedoria (I Co. 8.1). A ética do amor é a base da verdadeira sabedoria, os cristãos que são sábios amam, tanto a Deus quanto ao próximo (Mt. 22.37,38; I Co. 13). O sentimento faccioso é uma característica da  sabedoria meramente humana (Tg. 3.14, 26).  A palavra eritheia dá ideia de partidarismo, um dos sentimentos predominantes na igreja de Corinto (I Co. 1.10-13). Os cristãos que amadureceram na fé não vivem em disputas, não estão preocupados em conseguir espaço, não perseguem os holofotes. Essa é uma sabedoria vã, no sentido bíblico de vaidade, que passa, é efêmera, temporária (Ec. 1.1,2). É uma pena que muitas pessoas estão se digladiando dentro das igrejas por causa de espaço. As disputas políticas no contexto eclesiástico é uma demonstração de falta de sabedoria. A sabedoria do alto, que vem de Deus, nos conduz à mansidão, não se exaspera, não perde o controle (Tg. 3.13). A sabedoria do alto, que vem de Deus, nos impulsiona para a pureza. A santidade é uma marca do cristão que busca agradar o Senhor, que não se envolve com o mundanismo, que não ama as coisas do presente século (Rm. 12.1,2). A sabedoria do alto faz sossegar a nossa alma (Tg. 3.17), e nos dá a paz que o mundo desconhece (Jo. 14.27). Essa é uma paz que excede todo entendimento (Fp. 4.6,7), sendo resultante do fruto do Espírito (Gl. 5.22).

CONCLUSÃO
Vivemos na era do conhecimento, as pessoas estão envoltas de informações, algumas deles extremamente desnecessárias. Os cristãos, em meio às adversidades da vida, devem buscar a sabedoria de Deus, que vem do alto. Essa sabedoria está fundamentada no amor, na paz de Deus que excede todo entendimento. Além disso, ela é tratável, aberta à revelação de Deus, cheia de misericórdia, se preocupa com os necessitados. Essa, portanto, é uma sabedoria prática, que produz frutos, dignos de arrependimento (Mt. 3.8), demonstrada em imparcialidade, não se deixa cooptar pelas conveniências, não é fingida. Busquemos, pois, a sabedoria de Deus, que diferentemente da sabedoria do mundo, não produz problemas e resulta em bênçãos espirituais (Tg. 3.16-18).

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Lição 2 - O Propósito da Tentação

O PROPÓSITO DA TENTAÇÃO

Texto Áureo Tg. 2.17 – Leitura Bíblica Tg. 2.14-26



INTRODUÇÃO
Conforme estudamos na lição anterior, a Epístola de Tiago foi endereçada às “doze tribos”, provavelmente judeus cristãos do primeiro século (Tg. 2.1). Esses estavam passando por situações adversas, provações por seguirem a Cristo. Na verdade esse é o preço do discipulado (Mt. 16.24). Na aula de hoje destacaremos o aspectos das provações pelas quais os cristãos passam, bem como os objetivos e as possibilidades de vitórias sobre essas. Ao final esperamos motivar os irmãos e irmãs que são perseguidos por amor a Cristo a perseverarem na fé, até a volta de Jesus.

1. A TENTAÇÃO QUE É PROVAÇÃO
A palavra traduzida por tentação na Almeida Revista e Corrigida (ARC) em grego é peirasmós também significa provação. Nesse contexto essa palavra seria mais adequada, ao invés de tentação, considerando que os crentes daquele período estavam passando por perseguições por causa de Cristo. Nesse texto o termo peirasmós tem uma conotação positiva, diferentemente da palavra tentação, cujo significado é negativo. A provação aponta, de acordo com as instruções de Tiago, para um teste, que resulta em aprovação ou reprovação. Evidentemente as pessoas não querem sofrer, há até os cristãos que propõem um cristianismo isento de sofrimento. Tal ensinamento não tem respaldo bíblico, pois Jesus ensinou que no mundo teríamos aflições (Jo. 16.33). Paulo afirma que por muitas tribulações nos é necessário entrar no reino de Deus (At. 14.22). E alertou Timóteo que todos os que querem viver piamente em Cristo padecerão perseguições (I Tm. 3.12). Jó concluiu que o homem nasce para a tribulação como as faíscas voam para cima (Jó. 5.7). As causas das provas são diversas, não necessariamente elas provêm de Deus. Há pessoas que são provadas por causa da condição humana. Isso acontece porque somos humanos, e como tais nós passamos por enfermidades e desapontamentos, como qualquer outra pessoa, seja ela crente ou descrente. Existem provas também que resulta dos nossos pecados, mas essas não podem ser generalizadas, nem todas as pessoas sofrem por causa de pecados (Jo. 9.1,2; 11.4). Algumas pessoas são provadas porque tomaram uma decisão por Cristo. Nos dias atuais a perseguição predominante é ideológica, os cristãos estão perdendo espaço, até mesmo empregos e posições sociais. Tiago utilizou o termo poikilos que significa várias em grego, isso quer dizer que as provações têm fontes variadas, mas até essas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus (Rm. 8.28).

2. OS OBJETIVOS DAS PROVAÇÕES

Provações (1.2-18; 5.7-11). A igreja primitiva nasceu em uma época de terríveis dificuldades - lembre-se de que Tiago estava escrevendo a crentes que tinham se espalhado pelo mundo devido à perseguição. Assim, nâo deve ser surpreendente descobrir que um dos temas principais deste livro é como reagir a provações e tentações.
Muitas destas provações vinham de fora. Judeus fanáticos ou “zelosos”, como Saulo de Tarso antes de sua conversão, prendiam e matavam os seguidores de Cristo(At 6.8-7.60). O reconhecimento público de Cristo como Salvador e Senhor nâo levava à popularidade, ao poder, ou ao prestígio. Tiago também sabia das lutas que ocorriam internamente. Uma provação pode colocar à prova a fé dos crentes,causando dúvidas e desânimo e tornando-os suscetíveis a inúmeras tentações. E Satanás tenta usar os tempos difíceis para dividir a igreja. Assim, Tiago incentivou o seu novo rebanho a reconhecer a origem dos seus problemas - a sua natureza pecaminosa e o mahgno (1.13-16), a permanecer concentrado em Deus e em sua bondade (1.17,18), e a resistir aos ataques sutis de Satanás (4.7).

Quando somos provados, essas não são além das nossas forças, Deus sabe até onde somos capazes de suportá-las (I Co. 10.11). Por isso devemos saber que as provações são passageiras, elas não duram para sempre (Tg. 1.2). Existem pessoas que sofrem mais do que outras, e Deus tem seus propósitos em cada vida. Não podemos esquecer que Ele pode utilizar as provações com o fim pedagógico (Tg. 1.3,4). Deus é um dos poucos professores que primeiro entrega a prova para que os alunos extraiam a lição depois. Abraão foi chamado por Deus, mas antes precisou ser provado, a fim de mostrar seu compromisso com o Senhor. As provas de Deus objetivam nosso amadurecimento espiritual. Os cristãos mais imaturos são justamente aqueles que menos foram provados. As provas, quando resultam em crescimento espiritual, fortalecem a fé dos crentes. Como destaca Paulo, nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória (II Co. 4.17). Todos nós estamos “em construção”, e Deus está trabalhando em nossas vidas (Ef. 2.8-10). Assim Ele fez com José e Moisés, e está fazendo em muitos outros, inclusive em nós. O resultado da provação é a perseverança, a palavra grega é hupomene, que significa paciência, mais propriamente, firmeza diante das adversidades. Os crentes imaturos não conseguem esperar muito, se afastam do caminho na primeira adversidade que encontram. Por causa dessa impaciência Moisés matou o egípcio, sansão contou seu segredo a Dalila, e Pedro quase matou Malco. Ninguém deve temer as provas, nem mesmo aquelas que são permitidas por Deus. Jó reconheceu que inicialmente conhecia Deus apenas de ouvir, mas depois de provado teve uma percepção mais grandiosa da glória de Deus (Jó. 42.5).

3. A VITÓRIA SOBRE AS PROVAÇÕES
Os evangélicos influenciados pelo hedonismo moderno pensam que a vitória sobre a provação é justamente se livrar delas. Mas essa é uma realidade que não se concretiza para todos, somente para alguns, de acordo com a soberania de Deus. Há aqueles que somente obterão vitória das suas provas na eternidade, como aconteceu com os heróis da galeria de Hebreus 11. A vitória sobre as provações está justamente na fé, que é firme fundamento das coisas que se esperam, mas que não são visíveis (Hb. 11.1). Esse é o tipo de fé que Deus exige do Seu povo, não uma fé de barganha, alicerçada nas satisfações pessoais. Essa geração está adoecida pelo hedonismo, o prazer tornou-se a razão de ser, até mesmo entre os cristãos. Influenciados pela teologia da ganância, e pelo movimento pseudopentecostal, querem apenas as mãos de Deus, se distanciam da Sua face. A vitória que vence o mundo é a nossa fé (I Jo. 5.4), pistis em grego, que também pode ser traduzida como fidelidade. Sem uma fé compromissada é impossível agradar a Deus, os que dEle se aproximam devem ser fieis, independentemente das circunstâncias (Hb. 11.6). Jesus se dirigiu às igrejas perseguidas da Ásia Menor, mais especificamente para Esmirna, que passaria por provações, instruindo-a para que essa fosse fiel até a morte (Ap. 2.8-11). Carecemos de uma geração de crentes que não tenha receio das provações, que não se acomodem com o marasmo, e com essa filosofia hedonista. Os bem-aventurados, conforme expôs Jesus, não são aqueles que não querem sofrer. Justamente o contrário, os bem-aventurados são aqueles que são perseguidos por causa do nome de Jesus. Esses devem exultar, pois grande será no céu o galardão deles (Mt. 5.12). Enquanto não chegarmos ao céu, vivemos nesta terra sujeitos às provações, essas servem para nosso amadurecimento espiritual. Isso porque Deus está mais interessando em forjar nosso caráter do que nos fazer financeiramente prósperos. O objetivo do Senhor, através das muitas provações pelas quais passamos, é moldar nosso caráter em conformidade com Cristo, nosso Modelo (Gl. 4.19).

CONCLUSÃO
Os cristãos não estão imunes às provas, estamos sujeitos às mesmas condições dos descrentes. Por causa da nossa fé em Cristo podemos ser perseguidos, quando isso acontecer devemos exultar, pois sabemos que receberemos de Deus o galardão no céu. As provações pelas quais passamos nos alinham a fim de que sejamos moldados ao caráter de Cristo. Deus está construído nossas vidas, Ele está escrevendo nossa história. Mesmo nas situações adversas devemos saber que Aquele que começou a boa obra haverá de levá-la adiante, apesar dos pesares (Fp. 1.6).



Dúvidas e sugestões através do email: licoesbiblicasresponde@gmail.com

BIBLIOGRAFIA
LOPES, H. D. Tiago: transformando provas em triunfo. São Paulo: Hagnos, 2006.




sábado, 5 de julho de 2014

Lição 1 - TIAGO – FÉ QUE SE MOSTRA PELAS OBRAS

TIAGO – FÉ QUE SE MOSTRA PELAS OBRAS
Texto Áureo Tg. 2.17 – Leitura Bíblica Tg. 2.14-26



INTRODUÇÃO
A Epístola de Tiago, que será estudada ao longo deste trimestre, nos trará orientações a respeito do agir do cristão no mundo. Na aula de hoje introduziremos esse livro, considerando sua autoria, local, data e destinatário. Em seguida, destacaremos os propósitos da Epístola de Tiago, e ao final, apontaremos algumas instruções para os cristãos da contemporaneidade com base nesse texto bíblico.

1. EPÍSTOLA DE TIAGO
A Epístola de Tiago nem sempre foi compreendida pela igreja cristã, nem mesmo por alguns reformadores, que consideravam essa uma recaída no legalismo judaico. O próprio Lutero a criticava, argumentando que se tratava de “uma verdadeira epístola de palha, pois não é caracteristicamente evangélica”. Mas essa foi uma interpretação equivocada do sábio reformador, que não compreendeu o propósito do seu autor. Tiago, o autor da Epístola, é um dos quatro mencionados no Novo Testamento, sendo este o filho de José e Maria, portanto meio-irmão do Senhor (Mt. 1.18,20). Ele se tornou apóstolo de Cristo após testemunhar a ressurreição de Jesus, sendo considerado uma das colunas da igreja, além de ser líder influente em Jerusalém (At. 15.13-21; Gl. 1.19). O local da composição da Epístola é incerto, ainda que alguns estudiosos especulem que teria sido escrita em Jerusalém. A data provável deste escrito é entre 45 a 49 d. C., antes do concílio em Jerusalém (At. 15), sendo destinada aos cristãos judeus que residiam em comunidades de gentios fora da Palestina. Nas palavras do próprio Tiago, essa Epístola é destinada “às doze tribos que andam dispersas” (Tg. 1.1). A expressão “doze tribos”, nesse versículo é uma figuração dos israelitas daquela época, considerando que as doze tribos originais haviam sido desfeitas. Existem várias possibilidades de divisões dessa Epístola, apresentamos uma delas: Destino e saudação (Tg. 1.1); Provações e a maturidade cristã (Tg. 1.2-18); Cristianismo autêntico e suas obras (Tg. 1.19-2.26); Dissensões dentro da igreja (Tg. 3.1-4.12); Implicações de uma cosmovisão cristã (Tg. 4.13-5.11); e Exortações finais (Tg. 5.12-20). O versículo-chave da Epístola de Tiago certamente se encontra em Tg. 2.18: “Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras, mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras”. Mas há outros destaques, dentre eles: 1) a prática da Palavra de Deus (Tg. 1.22); 2) a religião pura e verdadeira (Tg. 1.27); e 3) o valor da oração do justo (Tg. 5.16).

2. O PROPÓSITO DA EPÍSTOLA DE TIAGO
A relação entre fé e obras é o ponto central da Epístola de Tiago, e está em consonância com o argumento do autor da Epístola aos Hebreus, defendendo que sem fé é impossível agradar a Deus (Hb. 11.6), e de Paulo, ao justificar que tudo que não é da fé é pecado (Rm. 14.23). Isso quer dizer que a fé exige ação, principalmente para aqueles que se deparam com provações (Tg. 1.2-4). Tiago revela, ao orientar a igreja, que a fidelidade faz diferença, por isso, ao enfrentarmos oposição, devemos nos considerar bem-aventurados (Tg. 1.12). Isso porque ao contrário do que é propagado na atualidade, as provas são instrumentos utilizados por Deus para o crescimento do cristão. Tiago adverte os irmãos da igreja para não se esquecerem da Palavra de Deus, especialmente diante das situações adversas (Tg. 1.22-25). Tiago também adverte a igreja em relação à distinção que se fazia entre as pessoas, principalmente no que tange à posição social (Tg. 2.1-6). A esse respeito a igreja pode influenciar a sociedade, na medida em que as pessoas se respeitam mutuamente, e se aceitam como irmãos e irmãs em Cristo, independentemente da condição socioeconômica. Deus exige fé, mas essa não pode ser atestada sem as obras, como testemunho para as pessoas. O objetivo de Tiago é justamente apontar a demonstração da fé, que acontece somente pelas obras. Evidentemente ninguém é salvo pelas obras, a salvação é pela graça, por meio da fé, não das obras, para que ninguém se glorie (Ef. 2.8,9). Por outro lado, como assume o Paulo no mesmo texto, fomos criados para as boas obras, para que andássemos nelas (Ef. 2.10). As pessoas que nos observam, e o próprio Deus, verão as nossas obras, como demonstração de fidelidade (Tg. 2.14-18). Jesus, antes mesmo de Tiago, destacou que os crentes são sal da terra e luz do mundo (Mt. 5.13) e que nos tornamos conhecidos através do frutos (Mt. 7.20). O controle da língua é fundamental na demonstração da fé do cristão, por isso os crentes devem ter cuidado, pois se “essa é inflamada pelo inferno” (Tg. 3.8). Ao invés de usar a língua para difamar, ou mesmo para murmurar, devemos orar a Deus, mas é preciso orar com sabedoria, não apenas para satisfazer nossos desejos egoístas (Tg. 4.2). Para o autor, os crentes não podem pactuar com o mundo, tornar-se amigo do mundo, significa ser inimigo de Deus (Tg. 4.4), antes devemos confiar no Senhor, que está no comando de todas as coisas (Tg. 4.13-15). Por fim, Tiago destaca o valor da igreja em comunidade, inicialmente na confissão dos pecados, e na oração uns pelos outros (Tg. 5.16).

3. INSTRUÇÕES DA EPÍSTOLA DE TIAGO
A partir das instruções de Tiago aos crentes primitivos, concluímos que essa epístola, ao contrário do que afirmou Lutero, não é “uma epístola de palha”. Tiago continua atual, e traz uma alerta para os crentes deste século. Em sua Epístola nos conclama a um cristianismo autêntico, fundamentado não apenas na doutrina, mas também voltado para a prática. A igreja cristã precisa avaliar-se continuamente a partir dessa mensagem. A doutrina bíblica da salvação demanda um ato de fé, uma convicção no sacrifício de Cristo na cruz do calvário (Ef. 2.8,9), mas também atitudes de fidelidade, que são demonstradas através de atitudes, condizentes com o evangelho de Jesus Cristo. Tiago não entra em contradição com Paulo, muito pelo contrário, seus posicionamentos se complementam. Em Rm. 3.28; 5.21; e Gl. 3.24 o Apóstolo dos gentios avalia a condição do homem pecador diante de Deus, mostrando a inutilidade da religião para a justificação. Em Tg. 2.24, o meio-irmão do Senhor ressalta a necessidade das obras, não apenas como demonstração perante os homens da salvação, mas também para nossa maturidade, na medida em que revelamos nossa fidelidade a Deus. Nesses tempos em que a igreja se volta para um cristianismo distanciado de um viver autenticamente cristão, faz-se necessário repensarmos, a partir da Palavra de Deus, quem de fato somos, e como devemos agir no mundo. A natureza da religiosidade precisa ser percebida à luz da orientação bíblica, caso contrário, nos tornaremos um mero ajuntamento de pessoas, debaixo de interesses meramente humanos. Os membros da igreja, como comunidade de fé, devem se relacionar uns com os outros, demonstrando atenção, especialmente os mais necessitados. Um cristianismo individualista, no qual as pessoas não se envolvem umas com as outras, nada tem a ver com aquele expresso por Jesus, ao edificar a Sua igreja. A igreja que é ekklesia sabe que está no mundo, que deve ser luz nas trevas, e apontar para Aquele que nos chamou para segui-Lo.

CONCLUSÃO
A Epístola de Tiago, escrita ainda no Século I, nos trás uma mensagem atual, que chama todo cristão à responsabilidade. A modernidade nos legou uma “zona de conforto”, até mesmo o cristianismo foi solapado por esse “modus vivendi”. Esse livro bíblico, que será estudado ao longo deste trimestre, abalará as estruturas de nossa sociedade acomodada. Oramos para Deus, que fale pela Palavra e o Espírito, a fim de que sejamos moldados à imagem de Cristo, e vivermos um cristianismo autêntico, em que nossas obras sejam condizentes com a fé que expressamos.

BIBLIOGRAFIA
DAVIDS, P. H. Tiago. São Paulo: Vida, 1997.
MOO, D. J. Tiago: introdução e comentário. São Paulo: 1999.

sábado, 10 de março de 2012

Lição 11 - Como Alcançar a Verdadeira Prosperidade

INTRODUÇÃO
O mercado livreiro está repleto de dicas a respeito de como alcançar sucesso financeiro. Os autores desses best-sellers estão cada vez mais ricos, mas os seus leitores continuam pobres, mesmo depois que leem seus livros. As igrejas estão na rota desse pensamento contemporâneo, alguns líderes eclesiásticos estão se tornando consultores para o enriquecimento em dez dias. Na lição de hoje, na contramão dessa perspectiva, mostraremos que a verdadeira prosperidade nada tem a ver com o que apregoam os adeptos da Teologia da Ganância, em seguida, destacaremos os fundamentos bíblicos para se alcançar a verdadeira prosperidade.

1. A BUSCA DO HOMEM PELA PROSPERIDADE FINANCEIRA
O homem moderno é produto da sociedade capitalista e tecnológica que o conduz ao consumismo. Nesse contexto, o ter acabou se tornando mais importante do que o ser, de modo que as pessoas são avaliadas não pelo que são, mas pelo que têm, e, às vezes, não pelo que possuem, mas pelo que aparentam que possuem. A propaganda é o meio que divulga os ideais consumistas, as pessoas são incitadas, a todo instante, a adquirem mercadorias que não precisam para satisfazerem não a si próprias, mas às exigências dos outros. Como resultando dessa lógica, muitos estão entrando pelo caminho do endividamento, indo além das suas capacidades de pagamento. O meio ambiente também está padecendo, tendo em vista que o mercado está disponibilizando cada vez mais produtos descartáveis, os quais, quando não são reciclados, demandam maior necessidade de matéria-prima, e, por sua vez, comprometem a saúde do planeta. A lógica consumista está moldando as atitudes do homem moderno de tal modo que o ser humano finda sendo reduzido à quantidade de quinquilharias que consegue acumular. A ética capitalista, conforme demonstrou Max Weber, tem fundo religioso, e mais especificamente, protestante. Ao invés de investirem no Reino de Deus, e mais especificamente, nos outros, os fiéis transformam o acúmulo em um fim em si mesmo, em alguns casos, como vemos nos dias atuais, sacramentalizam a riqueza e transformam a ostentação em benção divina. A Teologia da Ganância impera de tal modo em algumas igrejas que seus fiéis não buscam mais estar em conformidade com a vontade de Deus, mas a acumularem um patrimônio a respeito do qual possam se gloriar.

2. A PROSPERIDADE FINANCEIRA NA VISÃO NEOTESTAMENTÁRIA
Uma leitura cuidadosa dos evangelhos e das epístolas do Novo Testamento nos mostrará que essa lógica nada tem de bíblica. A economia de Deus está distante daquilo que nos é apresentado pelos teólogos da ganância nos canais de televisão. O apóstolo Paulo afirma que quem deseja obter riqueza cai em “muitos desejos descontrolados e nocivos” (I Tm. 6.9,10). Conforme destacou o Senhor Jesus, ser rico pode se tornar um empecilho para segui-LO, tendo em vista que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha que um rico entrar no Reino de Deus, o que espantou Seus discípulos, os quais, ao que tudo indica, pensavam de acordo com a teologia da benção material (Mt. 19.24,25). Os pobres, ao contrário do que acreditavam Seus discípulos, e os adeptos da famigerada Teologia da Ganância, são objeto do interesse divino (Mt. 5.1-12). Enquanto muitos, nestes tempos, buscam confiança nas riquezas, e tantos outros, fazem tudo para tê-las, utilizando até de meios escusos, Jesus chama a atenção para o “engano das riquezas” (Mt. 13.22). Aqueles que somente querem a prosperidade financeira deveriam ler mais os evangelhos, pois Jesus é categórico ao reprovar o acúmulo de tesouros na terra (Mt. 6.19-21). O interesse do Senhor é que acumulemos tesouros no céu (Mt. 6.10), e que coloquemos em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça (Mt. 6.33). Os adeptos da teologia da ganância buscam aproximação com os ricos, justamente o contrário de Jesus que se aproximava dos pobres (Lc. 1.51-53; 14.12-14). Até mesmo a corrupção tem sido naturalizada em determinados arraiais, contrariando o ensinamento de Jesus, especialmente no que tange à coisa pública (Lc. 3.11-14). Zaqueu é um exemplo de alguém que lidava indevidamente com os bens públicos, mas que ao ouvir o evangelho de Jesus, decidiu mudar seu modo de vida (Lc. 19.8,9). A riqueza é perigosa porque o seu poder está relacionado a uma divindade, Mamom, que é rival de Deus (Mt. 16.33), aqueles que adoram a esse deus são chamados por Jesus de insensatos (Lc. 12.16-21). As palavras de Paulo, ao jovem pastor Timóteo, servem de alerta a todos os cristãos, em especial à liderança: “os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição” (I Tm. 6.9), por isso, o líder da igreja não deve ser “apegado ao dinheiro” (I Tm. 3.3) e os diáconos não podem ser amigos de “lucros desonestos” (I Tm. 3.8).

3. O CAMINHO PARA A VERDADEIRA PROSPERIDADE
O caminho para a verdadeira prosperidade se encontra, entre muitas passagens bíblicas, na igreja de Jerusalém. Aquela sim era uma igreja próspera, pois mesmo não sendo normativo, os crentes demonstravam sensibilidade para as necessidades dos mais carentes. Lucas registra que “os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum. Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade” (At. 2.44,45). Ao invés de viverem apregoando a prosperidade financeira, buscavam a comunhão uns com os outros, se “dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações” (At. 2.42), a lógica do acúmulo não era central naquela comunidade, pois exercitavam a generosidade espontânea (At. 4.36,37). A comunhão era o valor fundamental, pois “ninguém considerava unicamente sua coisa alguma que possuísse, mas compartilhavam tudo o que tinha” (At. 4.31,32). Esse modelo, conforme destacamos anteriormente, não deve ser imposto sobre quem quer seja, os membros da igreja, conforme depreendemos de At. 5.1-5, tinha liberdade, isto é, opção de ficarem com seus recursos, ninguém era obrigado a entregar tudo o que tinha. O princípio, no entanto, permanece, a generosidade deva ser cultivada na igreja e a preocupação com as necessidades do irmão. Ser verdadeiramente próspero, nesse sentido, não significa acumular mais, antes ter mais para contribuir para o Reino de Deus. A condição financeira das pessoas nas igrejas é um assunto por demais complexo, e que não pode ser simplificado, sob o risco de cairmos no simplismo. As condições sociais e as oportunidades que as pessoas tiveram ao longo da sua existência não podem ser desconsideradas. É preciso estar ciente de que vivemos em um mundo injusto, distanciado da graça de Deus, as pessoas não têm igualdade de oportunidades. Os ricos conseguem ficar cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. A educação tem sido um instrumento para a ascensão social, mas não podemos deixar de atentar para o fato de quem nem todos têm oportunidade à educação de qualidade e ao emprego.

CONCLUSÃO
Diante dessa realidade, precisamos reconhecer que a economia de Deus vai em direção oposta àquela apregoada pelo mundo. Na economia de Deus não vale mais o que mais acumula, mas o que mais se desprende. Na economia de Deus o investimento maior não é no material, mas no celestial, onde o ladrão não rouba nem a traça corrói. Aqueles que, com seu trabalho honesto ou com muito estudo, conseguiram uma condição mais abastarda, lembrem-se daqueles que nada têm, e da recomendação bíblica: “a quem muito foi dado, muito será cobrado” (Lc. 12.48).

BIBLIOGRAFIA
FOSTER, R. A liberdade da simplicidade. São Paulo: Vida, 2008.
WILSON-HARTGROVE, J. God’s economy. Grand Rapids: Zondervan, 2009.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Lição 10 - Uma Igreja Verdadeiramente Próspera

IGREJA: O ISRAEL DO NOVO TESTAMENTO

O Israel de Deus

O escritor pentecostal Guy P. Duffield (1991, p. 219), em um estudo recente sobre a igreja, observou que:


em tempos recentes, o interesse no estudo da doutrina da igreja tem sido renovado. Cada era possui sua ênfase doutrinária especial. Nossa era não é exceção. Muitos teólogos e eruditos bíblicos contemporâ­neos afirmam que precisamos reestudar a doutrina da igreja, a fim de compreender o que ela é e qual a sua missão no mundo de hoje. Vários movimentos contemporâneos, tais como o ecumênico e o carismático, contribuíram para um ressurgimento do interesse no padrão da igreja do Novo Testamento.[1]

Esse estudo passa necessariamente por uma compreensão das me­táforas usadas em relação à igreja. Há muitas figuras no Novo Testa­mento que são usadas para descrever a igreja. A igreja é identificada, por exemplo, como sendo um santuário ou templo do Espírito Santo (1 Co 3.16); como sendo a noiva de Cristo (1 Co 11.2; Ef 5.21-32); família de Deus (Ef 2.19); a igreja é vista também como um exército (2 Co 10.4,5); a igreja como um sacerdócio (1 Pe 2.9); a igreja como um edifício (Ef 2.20-22); a igreja como mistério oculto (Ef 3.4,5; Cl 1.25- 27) e a igreja como o Israel de Deus (G1 6.16).
Esta última expressão, "Israel de Deus", encontrada em Gálatas 6.16, tem sido fonte de intensos debates por parte de muitos intérpre­tes da Bíblia. Muitos daqueles que acreditam que a expressão se refira à igreja deduzem que sendo assim ela suplantou totalmente o antigo Israel nos projetos de Deus. O teólogo O. Palmer Robertson escreveu um livro de 200 páginas no qual argumenta que o trato especial de Deus agora não é mais com o Israel nação, mas com o Israel como uma comunidade de cristãos.[2] Em outras palavras, Robertson tira seu foco do Israel étnico, como descendentes biológicos de Abraão, para pôr no Israel cristão, formado tanto por judeus como por gentios. Por outro lado, muitos outros que acreditam que essa expressão se refere ao antigo Israel deduzem que a igreja entrou no plano da redenção como um pa­rêntese até Deus cumprir seus propósitos por meio do Israel histórico.[3]No entanto, a Bíblia de Estudo Pentecostal destaca que a passagem de Gálatas 6.16 deve ser entendida no seu sentido natural, isto é, como sendo uma referência: "a todo o povo de Deus debaixo do novo concer­to, i.e., todos os salvos, tanto judeus como gentios".[4] Todavia, isso não significa dizer que o Israel nação ou histórico não seja mais importante no plano escatológico de Deus, pois a Escritura afirma que sim (Rm 11.2,25,26).
Nesta lição vamos estudar a prosperidade no contexto da igre­ja como sendo o "Israel de Deus". Deve ser destacado que a própria expressão "Israel de Deus" revela a necessidade de levarmos em conta em nosso estudo as raízes judaicas da igreja e, dessa forma, traçarmos um perfil bíblico da definição de prosperidade na esfera da igreja do Novo Testamento. Em outras palavras, um estudo mais completo sobre a prosperidade bíblica no contexto da igreja no Novo Testamento não pode de forma alguma prescindir dos princípios revelados no Antigo Testamento.

Israel como uma comunidade formadora de uma nação

J. G. Millar (2009, p. 1043) escreve que

a promessa de criar uma nação da família de Abraão se cumpre durante a permanência de Abraão no Egito, à medida que as tribos de Jacó tornam- se povo distinto. E nesse momento que Deus começa a se referir a Israel com seu povo (v. Êx 6.7, Tb. 3.7,10; 5.1; 7.16; 9.1,13; 18.1; 32.11; Tb. Lv 26.12). Javé assegura aos israelitas que se eles forem fiéis a ele, "vocês serão o meu tesouro pessoal dentre todas as nações. Embora toda terra seja minha, vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa" (gôy qâdôsh, Ex 19.5,6). E surpreendente que essas palavras não se repitam em nenhum outro lugar no AT (embora 'am qâdôsh apareça em Dt 7.6; 14.2,21; 26.19; 28.9; Dn 8.24), pois elas oferecem uma definição incipiente da comunidade de Deus.[5]

Dessa forma, percebemos que no Antigo Testamento a nação de Israel era identificada como o povo de Deus. Na verdade, esse era o cum­primento de uma promessa feita anteriormente a Abraão (Gn 12.1,2). Esse povo foi criado com um propósito específico dentro do plano re­dentor do Senhor (Ex 19.5,6).
Observamos, pois, de acordo com Êxodo 19.5,6, que o Senhor ele­geu Israel dentre muitas nações (Dt 7.6,7) para ser sua propriedade exclusiva e povo santo. É evidente que esse "exclusivismo" era um sinal de separação que distinguiria o povo de Deus dos demais povos (Lv 20.26). Deus escolhe um povo e deseja que esse povo seja santo (Ex 19.6; Lv 21.7,8; Nm 15.40; Dt 7.6). O Israel nação deveria ser um povo santo porque também era um povo sacerdotal (Ex 19.5,6). Como sacerdotes do Altíssimo, possuíam a missão de levar o nome do Senhor a outras nações.
Tanto as bênçãos decorrentes da obediência como as maldições advindas da desobediência na Antiga Aliança (Dt 27—28) devem ser entendidas dentro desse contexto da vocação do Israel nação. O pecado, em especial a idolatria, acaba levando o povo à derrocada total culmi­nando com os cativeiros tanto do Reino do Norte, na Assíria em 722 a.C., e do Reino do Sul, na Babilônia em 586 a.C. Em meio ao caos nacional, Deus, o Senhor, promete restaurar o seu povo por meio do concurso de uma nova aliança (Jr 31.31-34; Ez 36.26). Quando Jesus Cristo veio como o mediador dessa Nova Aliança, foi rejeitado pelo seu povo (Hb 9.15; 12.24; Jo 1.12). Com a rejeição do Messias por parte do Israel nação, os propósitos de Deus para seu povo terão continuidade através do Israel cristão. Todavia, Paulo afirma que Deus não rejeitou o Israel histórico (Rm 11.2); e que "todo o Israel será salvo" (Rm 11.26).

Israel como uma comunidade formando os cristãos

A igreja é vista na Bíblia como uma comunidade dos chamados para fora. Este sentido vem da palavra ekklesia, que é formada por ek, signi­ficando para fora e kaleo, cujo sentido é chamado. No entanto, o pano de fundo que dá significado à igreja se encontra nas páginas do Antigo Testamento. Ali encontramos a palavra hebraica qahal, cujo sentido é de uma congregação ou assembleia. Em Deuteronômio 18.16, encon­tramos Moisés falando à congregação ( qahal ). Os intérpretes observam que é mantida no Novo Testamento a ideia de uma comunidade que é convocada por Deus não somente para manter comunhão fraterna, mas também ouvir a voz dEle. William Barclay (1988, p. 47) põe em relevo os significados que ekklesia assume no Novo Testamento:

1. As vezes não frequentemente é descrita em termos humanos. As­sim, por exemplo, Paulo fala da igreja dos Tessalonicenses (1 Ts 1.1; 2 Ts 1.2). Em certo sentido, a igreja é composta de homens e pertence aos homens; os homens são os tijolos com que o prédio da igreja é edificado.
2. Muito mais frequente é descrita em termos divinos. A descrição muito mais comum do que as outras é "a Igreja de Deus" (1 Co 1.2; 2 Co 1.1; G1 1.13; 1Ts2.14; lTm3.5,15). A igreja pertence a Deus e provém dEle. Se não existisse o amor de Deus, não existiria a igreja; e se Deus não fosse um Deus que se comunica, não haveria nem mensagem nem ajuda na Igreja.

3. As vezes a igreja é descrita como a igreja de Cristo, (a) Nesse sentido, Cristo é o Cabeça da Igreja (Ef 5.23,24). A Igreja deve viver e se mover segundo a mente, o pensamento e a vontade de Cristo (b) A Igreja é o corpo de Cristo (Cl 1.24). E através da igreja que Jesus Cristo age. Ela deve ser mãos para trabalhar por Ele, pés para correr levando seus recados, uma voz para falar em seu nome.6

Dentro desse contexto, Paulo fala que a igreja entra no plano da sal­vação como um mistério: "Por esta causa, eu, Paulo, sou o prisioneiro de Jesus Cristo por vós, os gentios, se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada; como me foi este misté- rio manifestado pela revelação como acima, em pouco, vos escrevi, pelo que, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo, o qual, noutros séculos, não foi manifestado aos filhos dos homens, como, agora, tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas, a saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho" (Ef 3.1-6). O mistério é que a igreja é o povo de Deus agora formado tanto pelos judeus cristãos como pelos pagãos convertidos ao evangelho (G1 6.16; Rm 2.28,29; Ef 2.14-22; Fp 3.3; 1 Pe 2.9). A igreja é o povo de Deus sob o novo pacto. Todavia, isso não quer dizer que a igreja suplantou o Israel nação. Na sua carta aos Gálatas, Paulo diz que Cristo é o "descendente" prometido por Deus por intermédio do qual todas as nações da terra seriam abençoadas (G1 3.16). Em Cristo, Deus não substitui, mas dá continuidade ao cumprimento das promessas já ante­riormente feitas. I. Howard Marshall (2007, p. 113) comenta que

a igreja, ou novo Israel, compreende crentes judeus e gentios; a missão dos discípulos é para todas as nações, o que inclui a nação judaica. Como Donald A. Hagner expõe: A igreja não toma o lugar de Israel, antes Israel encontra a sua verdadeira identidade na igreja'.[6]

O que se conclui é que o Novo Testamento revela que Deus por meio de Jesus, o Messias, renovou a aliança com seu povo e que nesse renovo do pacto tanto judeus como gentios convertidos estão incluídos nele.[7] Entrar para a igreja é reconhecer Jesus como o Messias prometido e em quem todas as promessas do Senhor se cumprem.

Dois Testamentos, um só povo

Fica perceptível, portanto, que a palavra Israel tem uma significação ampla nas Escrituras. O. Palmer Robertson (2005, p. 120), faz uma im­portante síntese sobre os principais significados desse termo. Ele destaca como lugar, Israel é a Terra Prometida. Esse local entrou em cena, pela primeira vez, com a aliança permanente que Deus fez com Abraão. O lugar chamado Israel tem um papel importante a exercer na chegada do Reino messiânico posto que o evangelho do Reino ali foi proclamado pela primeira vez. A esse lugar, e a nenhum outro, veio o rei messiânico, e nele o Espírito Soberano do Messias foi derramado na carne humana. Israel, entendido como um lugar, é importante na chegada do Reino, mas vários outros significados desse termo devem ser reconhecidos.[8]
Palmer, ainda esclarece:

"O termo Israel, no contexto histórico, inicialmente designava a pessoa de Jacó, filho de Isaque e neto de Abraão. Esse patriarca abrangia em sua pessoa todas as gerações subsequentes do povo da aliança de Deus. Em última instância, o Israel de Deus, de maneira ainda mais significativa, encontrou sua encarnação no Cristo de Deus. Enquanto Jacó, ou Israel, teve a visão de uma escada que fornecia acesso aos reinos dos céus, Jesus identificou-se como a própria escada na qual o Israel de Deus ascendia à casa do Pai (Gn 28.10-15; Jo 1.47-51). Ele abrangia em si mesmo todo o povo escolhido "nele", redimido "nele" e encontrou a garantia eterna na união com ele (Ef 1.4,7,13,14).[9]
Concluindo, diz Palmer:
Portanto, Israel pode designar um lugar ou uma pessoa. Mas, além disso, o termo pode referir-se a uma comunidade sob várias perspectivas:
1. Os descendentes étnicos de Abraão, junto com os gentios conver- tidos, poderiam designar Israel.
2. O remanescente escolhido desse povo também poderia designar Israel, separado do resto da nação (Rm 9.6).
3. Da perspectiva da nova aliança, "o Israel de Deus" poderia ser mais geral, abrangendo o corpo de judeus e gentios que creem em Jesus (G1 6.16).
4. Na linguagem contemporânea, o Estado judeu é chamado de Israel.[10]
A Igreja e sua natureza e missão Localidade

As bênçãos de Deus, quer sejam de prosperidade, quer de saúde, acontecem dentro da esfera da igreja local. Os Institutos de Pesquisas têm detectado um fenômeno entre os evangélicos brasileiros — a exis­tência de uma geração de crentes migratórios. Esses novos evangélicos não firmam raiz com igreja alguma, mas vivem sempre a se lançar à caça de uma nova igreja que lhe garanta uma bênção sem muito esforço. Esse entendimento é fundamentado numa falsa compreensão do que seja servir a Deus. Nesses casos, o crente acredita que a sua participação em uma das dezenas de correntes de prosperidade ou o cumprimento de certos rituais exigidos lhe garantirão o favor de Deus sobre a sua vida. O relacionamento com Deus e o vínculo com uma comunidade local é totalmente esquecido. Para essas pessoas, muitas vezes, o problema está com as igrejas que mal frequentam e não com eles mesmos.
Outro fator que deve ser destacado aqui é o individualismo. No atual contexto o individualismo é incentivado e o espírito comunitário é esquecido. Infelizmente a vida da igreja hoje se parece mais com con­domínio do que com um lar. Em um lar, ao contrário de um condomí­nio, todos se conhecem e se confraternizam. No condomínio, às vezes não conhecemos nem mesmo o vizinho do apartamento da frente. E preciso resgatarmos o modelo de igreja revelado no Novo Testamento. No Novo Testamento a igreja é comunitária.
Quando fazemos referência à igreja que está na cidade de Jundiai  ou à igreja que se encontra em Campo Limpo Paulista, estamos com isso falando do aspecto local da igreja. A igreja é, pois, uma comunidade local. O crente necessita fazer parte da igreja na comunidade local. Nesse sen­tido, Paulo referiu-se à "igreja de Deus que está em Corinto" (1 Co 1.2). Lemos em Atos dos Apóstolos 13.1, por ocasião da primeira via­gem missionária, que na "igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e doutores". Às vezes fixamos muito a atenção nos ofícios de profetas e mestres, e acabamos por esquecer que tanto os profetas como os mestres pertenciam à igreja local que estava em Antioquia. Nenhum ofício, seja ele de profeta, seja de mestre ou evangelista, é legítimo se não operar dentro da esfera da igreja local.

Augustus Hopkins Strong (2003, p. 653) diz que

o único objetivo da igreja local é a glória de Deus no estabelecimento o seu reino tanto nos corações dos crentes como no mundo. Este objetivo deve ser promovido:
a) Pelo culto em conjunto, incluindo oração e instrução religiosa (Hb 10.25)
b) Pela mútua edificação e exortação (1 Ts 5.11)
c) Pelo empenho comum na correção do mundo impenitente (Mt 28.19;  At 8.4; 2 Co 8.5; Jd 23).12

Universalidade

Por outro lado, Paulo também fala da universalidade da igreja. A igreja é local, mas também é universal, isto é, ela é formada por todos os crentes de diferentes culturas, raças e nações, tanto de gerações pas­sadas como da presente. Sobre isso Paulo usa o termo igreja de uma forma muita mais ampla: "Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus" (1 Co 10.32). Esse texto deixa claro que a igreja, além de ser formada por diferentes etnias, é vista como transcendendo seu aspecto de localidade. John Ryle destaca:

A única igreja verdadeira é composta de todos os crentes do Senhor Jesus. Ela é formada por todos os eleitos de Deus, todos os converti­dos homens e mulheres, todos os cristãos verdadeiros. Seja lá em quem for que possamos discernir a eleição de Deus Pai, a aspersão do sangue de Deus Filho e a obra santificadora de Deus Espírito nesta pessoa, ve­mos um membro da verdadeira igreja de Cristo [...] Esta é a única igreja que é verdadeiramente católica. Ela não é a igreja de qualquer nação ou povo; seus membros são encontrados em todas as partes do mundo onde o evangelho é recebido e aceito. Ela não está confinada dentro dos limites de qualquer país, ou encerrada dentro de qualquer recinto de qualquer forma particular, ou dirigida por um governo externo. Nela não há di­ferença entre judeu ou grego, negro e branco, episcopal e presbiteriano, mas a fé em Cristo está em todos eles. No último dia seus membros serão reunidos de todas as partes — norte, sul, leste e oeste — e terão todos os nomes e falarão todas as línguas, mas todos serão um em Jesus Cristo.[11]

Por outro lado, William Barclay ilustra esse fato com a figura de um soldado. Um soldado pode orgulhar-se por pertencer a um determinado regimento. Todavia, esse regimento é parte do Exército, o que é motivo grande orgulho; por sua vez o Exército faz parte das forças armadas, o que é razão para honra ainda maior. Barclay conclui dizendo que é bom orgulhar-se da congregação da qual fazemos parte; é bom nos lembrar­mos das tradições de nossa denominação. Todavia, melhor do que tudo isso é saber que somos membros da Igreja de Deus.[12]

Unidade

Um ensinamento básico nos escritos de Paulo é o que trata da uni­dade da igreja. O ensino neotestamentário revela que a igreja é una. Escrevendo aos Efésios, Paulo diz: "Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação" (Ef 4.4). A palavra corpo refere-se à igreja. A igreja é um corpo e como tal seu funcionamento segue a analogia do corpo humano. Escrevendo aos Coríntios, Paulo diz: "Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é Cristo também" (1 Co 12.12). Embora existam diversas deno­minações evangélicas, todavia só existe uma igreja. A igreja é o corpo de Cristo formado por todos os crentes regenerados através do sangue do Cordeiro. O teólogo Wayne Gruden comenta:

O Novo Testamento fala com frequência sobre a necessidade de lutar pela unidade da igreja visível. Isso pode ser definido da seguinte maneira: unidade da igreja ê o seu grau de isenção da divisão entre os verdadeiros cris­tãos [...] não devemos esperar uma unidade organizacional ou funcional que inclua todas essas pessoas (cristãos nominais) nem trabalhar por isso; nunca haverá unidade de todas as igrejas que se denominam "cristãs". Mas o Novo Testamento nos encoraja a lutar pela unidade de todos os verdadeiros cristãos. [13]

Santidade

Ao escrever sobre o Espírito Santo como uma chama moral, A. W, Tozer (2003, p. 98, 99) destaca que

o alicerce da experiência de todo cristão verdadeiro deve ser um princípio moral são e sadio. Nenhuma alegria é válida, nenhum deleite é legítimo quando se permite que o pecado exista na vida ou na conduta. Nenhu­ma transgressão da pura justiça tem a ousadia de justificar-se no campo da experiência religiosa superior. Buscar estados emocionais intensos ao mesmo tempo em que vivemos no pecado é abrir as portas de nossa vida inteira para o autoengano e o juízo de Deus. "Sede santos" (Lv 20.7; 1 Pe 1.16) não é um simples mote que deve ser emoldurado e pendurado na parede. Trata-se de um sério mandamento do Senhor de toda a terra. "Purificai as mãos, pecadores; e vós que sois de ânimo dobre, limpai o co­ração. Afligi-vos, lamentai e chorai. Converta-se o vosso riso em pranto, e a vossa alegria, em tristeza" (Tg 4.8,9). O ideal do verdadeiro cristão não é ser feliz, mas ser santo. Somente o coração santo pode ser a habitação do Espírito Santo,[14]

A Igreja é santa.[15] Já vimos no Antigo Testamento que a prosperi­dade estava diretamente relacionada à santidade do povo de Deus; no Novo Testamento também. Escrevendo aos filipenses, Paulo diz: "Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com os bispos e diáconos" (Fp 1.1). O apóstolo se refere aos crentes de Filipos nessa passagem como santos. "Santo", do grego hagios, é alguém separado para um fim exclusivo. A santidade no Novo Testamento é tanto posicionai como progressiva. No primeiro caso, o crente é santo porque espiritualmente se encontra em Cristo e assim participa de sua santidade. Todavia, no seu viver diário ele tem sua parte a fazer, isto é, ajustando-se àquilo que a Palavra de Deus en­sina sobre um viver de pureza para Deus. Escrevendo aos coríntios, Paulo corrobora esse fato: "Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoan­do a santificação no temor de Deus" (2 Co 7.1).

Conta-se uma história que numa perigosa costa marítima no Oceano Pacífico onde havia muitos naufrágios havia também um pequeno posto de salvamento. O prédio era extremamente rude, não passando de uma pequena cabana, e havia somente um pequeno barco salva-vidas. Mes­mo assim, os membros, que eram poucos, porém dedicados, mantinham uma vigilância 24 horas sobre o mar e, sem egoísmo algum, saíam diuturnamente procurando pelas vítimas dos naufrágios. Centenas de vidas foram salvas por esse pequenino, porém eficaz posto salva-vidas, de forma que acabou ficando muito famoso. Alguns dos resgatados dos naufrágios, além de nativos da localidade, queriam associar-se no pequeno posto e dessa forma prestarem seus serviços, além de contribuírem com dinheiro para o serviço de salvamento das vítimas dos naufrágios. Foram compra­dos novos barcos, e novas tripulações foram treinadas. O pequeno posto de salvamento ganhou gente nova e ficou mais famoso.

Alguns dos membros do posto de salvamento estavam descontentes com o fato de o prédio ser tão velho e sem nenhuma estrutura de equipa­mentos. Acharam então que deveria haver um lugar que servisse de um primeiro refugio para os náufragos salvos. Assim, eles substituíram as ma­cas de emergência por camas novas e puseram uma nova mobília no pré­dio, que teve sua estrutura aumentada. O posto, agora, havia se tornado um lugar de reunião para os membros. Foi posta uma nova decoração e a mobília foi feita a capricho, pois o posto era usado agora como uma es­pécie de clube. O número de membros interessados em sair em missão de salvamento diminuiu drasticamente. A solução foi terceirizar o serviço de salvamento! A decoração do clube ainda lembrava os salvamentos, e dessa forma foi feito um barco salva-vidas litúrgico nas salas onde eram feitas as reuniões de admissão ao clube. Por aquele tempo, um grande navio nau­fragou naquelas águas, e as tripulações contratadas trouxeram barcadas de pessoas com frio, molhadas e semi-afogadas. Elas estavam doentes e sujas, e dentre elas havia negros e amarelos. Os náufragos deixaram o clube um caos! Vendo isso, os administradores do clube mandaram construir um banheiro do lado de fora, onde aqueles que haviam sido vítimas de nau­frágios pudessem tomar banho antes de entrar no clube.
Numa reunião posterior a esse naufrágio, houve uma divisão en­tre os membros do clube. A maioria havia decidido que as atividades de salvamento deveriam ser interrompidas imediatamente por serem desagradáveis e também porque atrapalhavam a vida social do clube. Poucos membros ainda insistiam em dizer que o salvamento de vidas era o propósito principal do clube e chamaram a atenção para o fato de que ele ainda era denominado de "posto de salvamento". Essa minoria inconformada foi derrotada em votação e aconselhada a sair do clube e construir seu próprio clube de salvamento um pouco mais abaixo da costa marítima. Após muitos protestos, eles se desligaram e construíram um novo posto de salvamento.
Passados alguns anos, o novo posto de salvamento vivenciou as mesmas transformações que o antigo tivera. Acabou se transformando em um novo clube, e mais um posto de salvamento foi fundado. A his­tória continuou a se repetir, de modo que, quando alguém visita aquele lugar hoje em dia, encontra dezenas de clubes exclusivos ao longo da costa marítima. Os naufrágios continuam acontecendo com frequência naquele lugar, mas a maioria das pessoas morre afogada.
Ao longo da história da igreja constatamos que essa parábola do posto salva-vidas se repete. Os movimentos restauracionistas ou avivalistas surgem como uma tentativa de colocar novamente a igreja em sua rota certa. Não há dúvida de que esse afastamento da igreja dos princí­pios cristãos está diretamente relacionado à negligência em compreen­der qual é o seu verdadeiro propósito ou missão. Não há dúvida de que as distorções da mensagem cristã causadas pela teologia da prosperidade é um fator determinante desse processo.

A igreja e o seu propósito
Em sua Primeira Epístola aos Coríntios, Paulo dá diretrizes como deve ser o culto cristão: "Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação" (1 Co 14.26). Paulo diz: cada um de vós tem salmo. Salmo aqui é uma referência ao hinário da Igreja Primitiva, embora saibamos que havia também expressões de louvor em línguas desconhecidas entre os primeiros crentes (Ef 5.19; Cl 3.16). O fato é que o culto cristão deve ser feito com adoração. R. G. Rayburn comenta que

adorar a Deus é atribuir-lhe o valor de que é digno. A igreja de Jesus Cris­to é, por definição, uma comunidade de adoração que Deus chamou à existência para ser "casa espiritual... sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo" (1 Pe 2.5). A igreja cristã, desde os seu primórdios, tem se reunido regular­mente para a adoração coletiva. Os atos de adoração mais básicos na igreja primitiva — a leitura e a exposição das Escrituras; as orações; o entorar de salmos, hinos e cânticos espirituais; e a observância dos sacramentos — to­dos derivam do exemplo e do mandamento do próprio Jesus.[16]

A igreja como uma comunidade instrutora e edificadora

O léxico grego de Kittel traz uma importante observação sobre a missão edificadora da igreja. Ao comentar a palavra oikodomê, traduzida como "edificação", diz:

Aqui a exortação pastoral do indivíduo é a forma na qual ele parti­cipa na edificação da comunidade e o desenvolvimento ou crescimento espiritual do irmão. O indivíduo ajuda edificar a comunidade recebendo para si mesmo a exortação do Evangelho e passando isto então para ou­tros. Importante, então, em relação ao termo é: 1. A relação do indivíduo com o todo, 2. O relacionamento mútuo dos membros individuais, 3. O caráter espiritual e carismático do processo de crescimento que aponta a plenitude e perfeição e não será limitado à moralidade ou interpretada erroneamente como condições sentimentais ou emocionais, e 4. A com­preensão teológica. O cristão individual contribui para edificação porque este é no final das contas a verdadeira obra de Cristo.

Nesse mesmo texto de 1 Coríntios 14.26, o apóstolo também diz "cada um de vós tem [...] doutrina". A palavra grega didaché, traduzi­da aqui como doutrina, é uma referência à instrução que era dada aos crentes através da exposição da Palavra de Deus. Toda igreja bíblica necessita da ação da Palavra de Deus. Pedro exorta aos crentes a desejar ardentemente o genuíno leite espiritual, que era capaz de dar cresci­mento para a salvação (1 Pe 2.2). E por isso que lemos que a igreja que estava em Antioquia possuía mestres (At 13.1). O próprio Deus os colocou na igreja como um ofício visando ao crescimento dos santos (Ef 4.11). Paulo diz que o propósito disso tudo é a edificação da igreja (1 Co 14.3,26). Outro aspecto que deve ser observado é o lado comu­nal da Igreja Primitiva quando vendiam suas propriedades e repartiam com os pobres, e não simplesmente o desprezo pelos bens materiais (At 4.32-35). Barnabé, por exemplo, doou uma propriedade (At 4.36-38), mas por outro lado Maria, mãe de João Marcos, continuou com a casa dela (At 12.12).

A igreja como uma comunidade proclamadora

Uma igreja adoradora, instruída na palavra, é uma igreja que pro­clama. A missão da igreja é pôr em prática a Grande Comissão (Mt 28.19). Fomos chamados para sermos proclamadores das Boas-Novas do Reino de Deus (1 Pe 2.9). Uma igreja que não prega, não evangeliza, não está cumprindo com sua missão. Gene Getz escreve que:

A igreja existe, portanto, para cumprir duas funções fundamentais — a evangelização (fazer discípulos) e a edificação (ensinar-lhes). Por sua vez, essas duas funções respondem a duas perguntas — primeira: "por que a igreja existe no mundo?" e segunda: "por que a igreja existe como comu­nidade congregacional? Quando você indaga "Por que a igreja existe no mundo?", você está perguntando o que Deus espera realizar por meio de seu povo à medida que este entra em contato com o mundo incrédulo! Quando você indaga "Por que a igreja existe como comunidade congre­gacional?", você está indagando o que Deus espera que aconteça aos fiéis à medida que se reúnem como membros do corpo de Cristo.21

A igreja é o Israel de Deus, e como tal tem a missão de ser o povo de Deus nesta terra. Dentro do contexto da prosperidade bíblica é impor­tante dizer que todas as bênçãos que Deus tem para seu povo acontecem dentro da esfera da igreja. O importante não é apenas ser abençoado, mas ser abençoado por pertencer à igreja.












[1]DUFFIELD, Guy P. Fundamentos da Teologia Pentecostal. São Paulo: Editora Quadrangular, 1991.
[2]  ROBERTSON, O. Palmer. O Israel de Deus: Passado, Presente e Futuro. São Paulo: Editora Vida, 2005.
[3]  Lewis Sperry Chafer em sua Teologia Sistemática (2003, vol. III e IV, p. 413) observa que
fazer "distinção entre o propósito para Israel e o propósito para a Igreja é táo importante quanto aquele que existe entre os dois testamentos. Pacto, promessa e provisão para Israel sáo terrestres, e Israel será uma nação respeitada na terra, quando ela for recriada. Todo pacto ou promessa para a Igreja é para uma realidade celestial, e ela continuará na cidadania celestial quando os céus forem recriados". Deve ser destacado que a teologia de Chafer reflete a influ­ência dispensacionalista de C. I. Scofield com quem manteve contato de 1903 até 1921. De acordo com a Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, a teologia de Chafer pode ser caracterizada como bíblica, calvinista, pré-milenista e dispensacionalista; mas ele era princi­palmente um expositor poderoso das Escrituras (vol. I, p. 273).
[5] MILLAR, J. G. In: Novo Dicionário de Teologia Bíblica. São Paulo: Editora Vida.
[6]  MARSHALL, I. Howard. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova.
[7]  "A ekklesía não é um povo à parte de Israel, nem um "novo povo de Deus", mas o Israel autêntico. Não sucede a Israel, mas indica a direção em que o Israel não convertido a Jesus, "o cumprimento das Escrituras", deve caminhar para alcançar a plenitude de povo eleito". GOMES, João Batista. O Judaísmo de Jesus: O Conflito Igreja-Sinagoga no Evangelho de Mateus e a Construção da Identidade Cristã. São Paulo: Edições Loyola, 2009, p. 216).
[8]   ROBERTSON, O. Palmer. O Israel de Deus— Passado, Presente e Futuro. São Paulo: Editora Vida.
[9]  Idem, Ibid.
[10] ROBERTSON, O. Palmer. O Israel de Deus—Passado, Presente e Futuro. São Paulo: Editora Vida.
[11] RYLE, John. In: Os Fundamentos. Editado por R. A. Torrey. São Paulo: Editora Hagnos,
2005, p. 553,554.
[13] TOZER, A. W. Verdadeiras Profecias para uma Alma em Busca de Deus. São Paulo: Editora dos Clássicos, 2003.
[14] TOZER, A. W. Verdadeiras Profecias para uma Alma em Busca de Deus. São Paulo: Editora dos Clássicos, 2003.
[15] Wayne Gruden destaca doze sinais que identificam uma igreja pura ou santa: doutrina bíbli­ca, uso adequado dos sacramentos ou ordenanças, aplicação correta da disciplina eclesiástica, adoração genuína, oração eficaz, testemunho eficaz, comunhão eficaz, governo eclesiástico bíblico, poder espiritual no ministério, santidade de vida entre os membros, cuidado pelos pobres e amor por Cristo. (Teologia Sistemática. São Paulo: Edições Vida Nova, 2003.)
[16] Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. I. São Paulo: Edições Vida Nova.