quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Lição 4 - A Providência Divina na Fidelidade Humana



A Providência Divina na Fidelidade Humana

INTRODUÇÃO

Neste capítulo percebe-se a obsessão do rei Nabucodonosor pelo poder quando ele se engrandece e se endeusa perante os súditos do seu império. Supõe-se que a história desse capítulo ocorreu quase ao final do seu reinado (Jr 32.1; 52.29).
O capítulo três é mais uma prova de que vale a pena ser fiel a Deus até mesmo quando somos desafiados em nossa fé. Percebe- se que Nabucodonosor já havia se esquecido da manifestação do poder de Deus na revelação dos seus sonhos, mas ele parecia embriagado pelo poder e pelo fulgor de sua própria glória. A presunção chegou ao ápice da paciência de Deus e ele não se contentou em ser apenas “a cabeça de ouro” da grande estátua do seu sonho no capítulo dois. Ele perde o bom senso e constrói uma estátua toda de ouro de mais de 27 metros de altura aproximadamente, e ordena que os representantes das nações, súditos seus, se ajoelhassem e adorassem à sua estátua que representava ele mesmo. Tornou-se um déspota que exigia dos seus súditos um servilismo irracional. No meio da multidão dos súditos estavam os três jovens hebreus fiéis ao Deus de Israel, o qual não transigiu de modo algum.


1.     A RELIGIÃO DE NABUCODONOSOR

O rei Nabucodonosor fez uma estátua de ouro (3.1). Na verdade, o Império Babilónico foi o primeiro grande império mundial a construir uma grande estátua que deveria ser adorada por todos os súditos do império (Dn 3). Era interessante notar que em nenhum momento se identifica a estátua com algum deus babilónico. A omissão de algum nome para essa estátua sugere que o rei fez uma estátua que fosse identificada com ele mesmo que assumia uma postura de deidade. Era comum naqueles tempos dos assírios e babilónicos que os seus reis construíssem suas próprias imagens nas entradas dos palácios e diante das imagens dos deuses para que ficassem protegidos de males e fossem felizes em seus reinados. Porém, aquela imagem de 27 metros de altura fora construída para ser adorada pelos súditos em obediência ao edito soberano de Nabucodonosor.      
Em ocasiões especiais como a que o rei propiciou, quando as homenagens aos reis aconteciam diante dos deuses, Nabucodonosor exigia obediência cega dos seus súditos de todos os territórios do império fortalecendo seu domínio. De todas as nações presentes com seus exilados estavam lá os judeus que serviam ao Deus vivo de Israel.
 Mas o rei testava seu poder de dominação requerendo dos exilados que renegassem suas crenças e substituíssem seus deuses pelos deuses da Babilônia. Na história contada por Daniel, estavam lá os seus três amigos. Não há uma explicação plausível para a ausência de Daniel naquele evento. O que importa, de fato, é que os três hebreus deram uma lição de fé no seu Deus.



2. A FIDELIDADE DOS SERVOS DE DEUS

Como testemunhas de Deus, devemos nos posicionar, mesmo diante de ameaças (Dn. 3.15). Há crentes que têm medo de perseguições, por isso buscam conveniências, às vezes fazendo concessões.
A igreja não deixa de crescer durante a perseguição, muito pelo contrário, temos testemunhos de fidelidade justamente em tempos adversos. Devemos orar pela paz, e buscar viver bem em sociedade, mas é preciso ter cuidado, para não transformar a comodidade em comodismo. A defesa da nossa fé não precisa ser odiosa, devemos demonstrar mansidão (I Pe. 3.15), e amor, até mesmo aos inimigos (Mt. 5.44-48). A igreja de Jesus Cristo está susceptível às perseguições (II Tm. 3.12).
Ainda que no futuro leis sejam aprovadas, contrárias aos fundamentos da fé cristã, não assumiremos os valores defendidos e praticados pelo mundo (I Jo. 5.19). As consequências poderão ser desafiadoras, mas devemos permanecer firmes, como fizeram os jovens na Babilônia (Dn. 3.17,18).
 Os cristãos continuarão a viver a partir dos princípios divinos, independentemente das circunstâncias. A morte não deve ser motivo de temor, pior que a morte é um cristianismo medíocre, que não se compromete com a verdade divina (Mt. 10.28). Nesses dias que antecedem ao pleito eleitoral, tenhamos cuidados para não nos dobrarmos diante de ideologias humanas. Também sejamos cautelosos para não nos tornarmos meros moralistas, julgando os pecadores sem dar-lhes a oportunidade de arrependimento. Se por um lado, muitos estão se dobrando diante do deus-imoralidade, outros estão, com a maior naturalidade, se deixando conduzir pelo deus Mamom. O mesmo Deus que reprova os pecados sexuais (Mt. 5.32)  também censura os adoradores do dinheiro (Mt. 6.24; I Tm. 6.10).  Somente Deus deve ser adorado, essa é a mensagem contundente de Jesus, profética para os dias atuais (Mt. 4.10). E que possamos responder como os três jovens : Eles estavam prontos, não para obedecer a imposição do rei quanto à sua fé. Eles estavam prontos, sim, para manter a sua fé no Deus que podia mudar toda aquela situação. Aqueles jovens entendiam que fidelidade é algo inegociável. A fidelidade desses jovens era mais que uma qualidade de caráter, era uma confiança inabalável em Deus que haveria de intervir naquela situação. A resposta resultava do conhecimento prévio que tinham do mandamento divino: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor, teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a maldade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem” (Ex 20.3-5). Deus busca homens e mulheres que tenham a fibra de manter a fidelidade a Ele mesmo quando ameaçados.
Não necessitamos de te responder sobre este negócio (3.16). A confiança em Deus e a certeza de que Deus faria alguma coisa lhes deu a convicção de que valia a pena enfrentar a fornalha pelo de Jeová.
  
3. A PROVIDÊNCIA DO SENHOR

Os jovens, fiéis servos do Senhor, foram lançados na fornalha de fogo ardente, resultante da fúria insana de Nabucodonosor (Dn. 3.15). Ele mandou aquecer a fornalha sete vezes (Dn. 3.19) e mandou amarrá-los antes de lança-las no fogo (Dn. 3.20). Nem sempre Deus livra os seus servos da fornalha, mas na fornalha (Is. 43.1-30). Os cristãos que não querem mais sofrer, e que fogem da possibilidade de perseguição, não compreenderam o preço do discipulado (Mt. 16.24). Há uma cruz a ser carregada, com C. S. Lewis, não recomendamos o cristianismo a quem quer uma religião confortável.
A fé cristã nos tira do lugar comum, nos lança diante da adversidade, também da incompreensão.
 Por causa da nossa fé, podemos ser tratados como a escória do mundo, não poucas vezes assumidos como loucos (I Co. 1.17-23). Mesmo diante das perseguições, podemos confiar em Deus, Jesus prometeu estar conosco (Mt. 28.20). Justamente nas horas mais adversas, quando somos perseguidos por causa do amor a Cristo, sentimos mais de perto a Sua presença. Aqueles que são perseguidos na defesa do evangelho são bem-aventurados (Mt. 5.11,12). Deus promete, no meio da perseguição, nos dá o escape, mesmo que esse venha com a morte. A galeria dos heróis da fé de Hb. 11 é uma demonstração dessa verdade. O Senhor pode decidir ser glorificado através da passagem dos seus servos para a eternidade.
Estevão se tornou o primeiro mártir da fé cristã, mas para isso precisou sacrificar a própria vida, por amor a verdade do evangelho de Jesus Cristo (At. 7.51-60).
Mas o Senhor pode soberanamente dar o livramento nesta vida, de maneira providencial como fez com os jovens judeus na Babilônia (Dn. 3.24,25). Mas eles não foram salvos para a glória pessoal, antes para dar glória a Deus (Dn. 3.26).

CONCLUSÃO

Nabucodonosor reconheceu que o Deus de Ananias, Misael e Azarias era o Deus Poderoso (Dn. 3.28,29). As atitudes da igreja, em todo o tempo, como sal da terra e luz do mundo (Mt. 5.13,14), devem apontar para Cristo. Ele é Cabeça da Igreja, e nós, como corpo, devemos agir a partir dos Seus princípios. Uma igreja cristã autêntica tem compromisso com a Cabeça, não em agradar a líderes meramente religiosos (Cl. 1.18). Ainda que sejamos perseguidos, estamos certos que nada nos separará do amor de Cristo (Rm. 8.39-37).

BIBLIOGRAFIA

 SILVA, S. P. da. Daniel: versículo por versículo. Rio de Janeiro: CPAD, 2013.
CABRAL, ELIENAI. Integridade Moral e Espiritual. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

LIÇÃO - 3 O DEUS QUE INTERVÉM NA HISTÓRIA

INTRODUÇÃO

O capítulo dois do livro de Daniel se constitui da revelação do plano divino para com o povo judeu e os povos gentios, para os quais Deus revela a sua soberania sobre os governos mundiais e o estabelecimento do reino messiânico. Deus intervém na história para fazer valer seus desígnios na vida da humanidade. Neste capítulo, a Babilônia aparece como dona do mundo e Nabucodonosor é o grande rei. Aproximadamente em 604 a.C., num período em que a Babilônia atingiu o seu apogeu, quando, de repente, a tranquilidade de Nabucodonosor foi ameaçada por um sonho perturbador que o deixou sem dormir. Por providência divina, o rei esqueceu o sonho para que os desígnios divinos fossem revelados ao profeta visionário Daniel. Na primeira parte do capítulo 2 temos a intervenção divina para salvar Daniel e seus amigos. A ordem do texto ajudará a entender como Deus trabalha nas circunstâncias adversas.

1. O SONHO DE NABUCODONOSOR


I. O que é um Sonho? Definições

Meus amigos, ninguém sabe ainda o que é sonhar. Todas as definições fracassam em algum ponto. Mas talvez várias dessas definições nos possam dar uma razoável descrição a respeito.
I. Bergson supunha que haja um elo direto entre a percepção dos sentidos e a memória. De acordo com essa definição, um sonho seria uma atividade mental que emprega o armazém de percepções gravadas no cérebro, envolvendo a memória e reconstruindo cenas. Sem dúvida, muitos sonhos estão envolvidos nesse tipo de atividade.
Mas até mesmo isso tem aspectos misteriosos, porquanto não sabemos como a memória é entesourada no cérebro humano. Além disso, sempre haverá o problema da mente como distinta do cérebro. É patente que a mente, e não somente o cérebro, está envolvida nos sonhos. Sonhar é uma função mental que pode ultrapassar o fundo de informações armazenadas no cérebro. Ainda recentemente tive um sonho lúcido que pode ilustrar o ponto. Um sonho lúcido é aquele em que a pessoa sabe que está sonhando, e pode exercer algum controle sobre ele. Nesse sonho, pois, eu caminhava ao longo de uma rua muito enfeitada, com muitos desenhos coloridos. E as construções de um e do outro lado da rua, embora humildes, também tinham desenhos de variadas cores. Eu sabia que estava sonhando, e parei para admirar a cena. Pensei: "Como é que a minha mente pode inventar tudo isso?" Olhei para as coisas que via e notei quão perfeitas elas eram, não menos perfeitas do que no estado de vigília. No sonho, tudo era perfeito em suas sombras e intrincados detalhes. Poderia ser tudo aquilo somente o banco de memória do meu cérebro, reorganizado? Ou a mente tem participação ativa nos sonhos? Sabemos que até mesmo a simples percepção, no estado de vigília, vai muito além do que realmente a gente vê. O cérebro (ou a mente) inventa coisas, adicionando detalhes às informações captadas pelos olhos. Portanto, podemos afirmar que até mesmo apercepção, quando estamos despertos, envolve um pouco de alucinação. Tenho tido sonhos onde ouço admiráveis peças musicais. Isso complica o problema, porque creio que a qualidade da música que tenho tido em meus sonhos ultrapassa a tudo quanto está armazenado em minha-:memória. Após um sonho assim, desperto com um senso de admiração, completamente fascinado pelo que acabei de ouvir no sonho. Identifico sonhos assim como espirituais, porquanto esse tipo de coisa, a extrema beleza dos sons e das cenas, sempre acompanha algum tipo de mensagem que recebo, alguma forma de discernimento especial ou de projeção para o futuro. Meus próprios sonhos me têm convencido de que há muito mais coisa envolvida nos sonhos do que meros novos arranjos de percepções anteriores, armazenadas na memória, embora isso possa ser suficiente para explicar a maioria dos sonhos. Estou convencido de que, nisso, está envolvida a mente, e não apenas o cérebro.


Entre os muitos modos de Deus falar e revelar a sua vontade aos homens estão os sonhos. É uma via especial pela qual Deus revela sua vontade. Segundo o Dicionário Aurélio, “sonho pode ser “sequência de fenômenos psíquicos com imagens, atos, figuras e ideias que, involuntariamente ocorrem durante sono de uma pessoa”. Pode ser a sequência de pensamentos, de ideias vagas, mais ou menos agradáveis, mais ou menos incoerentes, às quais o espírito se entrega em estado de vigília. Naturalmente, temos que entender que nem todo sonho é alguma revelação. Sabe-se, também, que os sonhos podem advir de imagens que o subconsciente absorve durante o dia e que se manifestam durante o sono. As vezes, incompreensíveis e fantasiosos e, outras vezes, com sequência de imagens que se formam na mente e expressam a preocupação que está na mente da pessoa. No campo espiritual, Deus se utiliza desses recursos da natureza humana para falar aos seus servos. Não existe uma regra que favoreça a ideia de que Deus tenha que falar por meios de sonhos e visões. E apenas um modo pelo qual Deus se revela, tanto a crentes como a não crentes. Nabucodonosor era um rei pagão que servia a outros deuses, mas o Deus de Daniel usou uma via indireta de revelar a esse rei o seu próprio futuro e o das nações do mundo.

O sonho de Nabucodonosor, que se encontra em Dn. 2, nos dá uma visão panorâmica dos acontecimentos futuros. O monarca babilônico se encontrava em uma posição de opulência, depois de ter dominado toda a terra (Jr. 27.6,7). A Babilônia, por aquele tempo, se transformou na rainha das nações, a capital da civilização, o centro da cultura, a sede do comércio. Mas certa noite o rei teve um sonho perturbador, de modo que o fez perder o sono, justamente porque era incapaz de saber o conteúdo daquela visão (Dn. 2.1). Tratava-se de um sonho misterioso, que se encontrava no inconsciente do rei. Então mandou chamar os magos, astrólogos, encantadores e caldeus para que declarassem o que o rei tinha sonhado. Os sábios esperavam que Nabucodonosor revelasse o sonho, para que esse fosse interpretado por eles (Dn. 2.3,4). A língua utilizada por eles foi o siríaco, uma variação do aramaico, talvez uma maneira de mostrar identificação com o rei. Em tom de ameaça o monarca exige dos sábios uma interpretação, mesmo sem ter a capacidade de relatar o sonho. A crueldade desse rei é identificada em suas palavras “se me não fizerdes saber o sonho e a sua interpretação, sereis despedaçados” (Dn. 2.5). Por outro lado, ofereceu-lhes benefícios, caso fossem capazes de revelar e interpretar o sonho: “receberei de mim dons, e dádivas, e grande honra, portanto declarai-me o sonho e a sua interpretação” (Dn. 2.6). Os sábios insistiram para que o rei contasse o sonho, para que pudessem dar uma interpretação. Na verdade eles estavam tentando ganhar tempo, por não terem competência para fazê-lo. Essa é uma demonstração das limitações humanas em relação à revelação. Ninguém pode declarar as verdades ocultas de Deus, a menos que Ele mesmo decida revelá-las (Mt. 11.28; Dt. 29.29).

2. O FRACASSO DOS SÁBIOS DA BABILÔNIA 

Os caldeus se expressaram, mostrando a incompetência humana diante daquele mistério (Dn. 2.10). Eles reconheceram que ninguém “sobre a terra” poderia declarar o sonho do rei, e nisso estavam corretos. A exigência do rei era difícil demais, apenas uma intervenção sobrenatural, vinda de Deus, poderia satisfazer a vontade do rei. Essa resposta deixou o rei irado, ao ponto de ordenar a matança de todos os sábios da Babilônia (Dn. 2.12,13). Aquele decreto resultaria inclusive na morte do jovem Daniel e seus amigos (Dn. 2.14). Ao invés de se exasperar, Daniel, com brandura, buscou aplacar a ira dos emissários do rei. O comportamento do jovem Daniel nos faz lembrar que a palavra branda desvia o furor (Pv. 15.1). Tenhamos cuidado para não tomar decisões precipitadas, muito menos nos adiantar nas palavras. Daniel resolveu pedir ao rei um tempo para que pudesse dar a interpretação do sonho. Aquele jovem sabia que em tempos de aflições, Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia (Sl. 46.1). Ele tomou a decisão de partilhar a situação com seus amigos, Hananias, Misael e Azarias, para que eles orassem em favor da situação. Como Daniel, e seus amigos, devemos confiar que Deus intervém na história através da oração. Como bem nos lembra Tiago, a oração do justo pode muito em seus efeitos (Tg. 5.16). Nenhum cristão, entre eles os jovens, não deve desprezar o valor da oração. O pragmatismo moderno tem distanciado os crentes das horas silenciosas, e dos momentos particulares de oração. A oração é a porta aberta para os céus (Lc. 3.21), o próprio Jesus orou, motivo suficiente para orarmos (Hb. 10.5-7). Daniel também é um exemplo de confiança na soberania de Deus. O Senhor conhece todas as coisas (Sl. 147.5), nEle está a profundidade da sabedoria (Rm. 11.33), em Cristo repousa a plenitude da divindade (Cl. 2.9).

3. DANIEL INTERPRETA O SONHO

Diante das autoridades, Daniel defendeu, com sabedoria, que Deus revela o profundo e o escondido, porque conhece o que está em trevas, e com ele mora a luz (Dn. 2.22). Em seguida pede para ser introduzido à presença do rei, para trazer a interpretação do seu sonho (Dn. 2.24). Antes Daniel chama a atenção do rei, ressaltando que sua exigência foi despropositada, considerando que aquele segredo ninguém seria capaz de descobrir (Dn. 2.27). Existem pessoas, até mesmo entre os crentes, que assim como fez Saul (I Sm. 28), querem forçar determinadas revelações. Mas não adianta investir em profecias que não foram dadas por Deus, somente o Senhor tem as revelações (Dn. 2.28). Paulo lembrou a grandeza desse Deus no Areópago em Atenas (At. 17.23-25). E apelando a revelação do Senhor, Daniel declara que o rei sonhou com uma grande estátua de material heterogêneo. Os vários materiais daquela estátua tinham significados profundos, os quais foram revelados pelo profeta do Senhor. A cabeça de ouro representava o império babilônico, que durou de 606 a 539 a. C. Os braços e peito de prata representava o império medo-persa, que durou de 539 a 331 a. C. O ventre e as coxas de bronze representavam o império grego, que durou de 331 a 146 a. C. E as pernas e pés de ferro e barro o império romano que durou de 146 a. C. a 476 d. C. Daniel viu ainda que “uma pedra foi cortada sem mão, a qual feriu a estátua nos pés de ferro e barro, e os esmiuçou” (Dn. 2.34). A pedra se refere a Cristo, em alusão às revelações do Senhor, em Seu sermão escatológico (Mt. 24.30). Isso acontecerá por ocasião da vinda de Jesus, a fim de despedaçar o governo do anticristo (Mt. 21.44). Esse será o momento em que o Reino de Deus, em sua plenitude, será inaugurado (Is. 2.2; Mt. 16.18; I Pe. 2.5), após a batalha do Armagedom (Ap. 17.14; 19.16).

CONCLUSÃO

Como um verdadeiro profeta de Deus, Daniel se negou a receber as recompensas oferecidas pelo monarca. O Senhor, no entanto, usou aquela oportunidade, a fim de concretizar Seu desígnio, em relação ao Seu povo. Em todas as circunstâncias devemos confiar em Deus, que continua se revelando, e dependendo da Sua soberania, certos que tudo coopera para o bem daqueles que amam a Deus, e que são chamados segundo Seu propósito (Rm. 8.28). Como Daniel, devemos ser humildes, reconhecendo que o Deus, além de revelar os mistérios ocultos, tem a história em suas mãos.

BIBLIOGRAFIA

SILVA, S. P. da. Daniel: versículo por versículo. Rio de Janeiro: CPAD, 2013.
Cabral, Elienai,  Integridade Moral e ESpiritual. Rio de Janeiro : CPAD, 2014.
Champlin, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, Hagnos,2004.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

AULA - 2 A FIRMEZA DO CARÁTER MORAL E ESPIRTUAL DE DANIEL

INTRODUÇÃO


Conforme estudamos na lição anterior, após a queda de Judá perante a Babilônia, os jovens intelectuais foram levados cativos para aquela nação. É nesse contexto que encontramos Daniel, diante da adversidade e da oposição cultural em relação a sua fé. Na aula de hoje nos voltaremos para a firmeza moral e espiritual desse homem amado de Deus, que serve de exemplo de resistência, diante de culturas que não se coadunam com os princípios divinos. 

1. O FAVOR DE DEUS A DANIEL

Conforme destacamos em aulas anteriores, aconteceram várias deportações de judeus para a Babilônia. Daniel e seus amigos foram conduzidos a essa nação por volta do ano 605 a. C., quando tinham aproximadamente 15 anos, portanto, na juventude. Em Judá, por aqueles dias, a idolatria havia tomado conta da nação, as pessoas não tinham mais compromisso com a Palavra de Deus. Mesmo assim, conforme antecipou Isaias em sua mensagem profética, Deus sempre tem seu remanescente (Is. 7.3). Na igreja acontece a mesma situação, há aqueles que professam o nome de Deus apenas com os lábios, mas seus corações estão distantes do Senhor (Mt. 7.21-23). Felizmente existem aqueles que não se dobram diante das ameaças, e permanecem firmes diante do confronto cultural, sem fazer concessões em relação a sua fé. Assim agiram Daniel e seus amigos, que foram preparados providencialmente por Deus para enfrentarem aquela condição adversa, a fim de testemunharam da grandeza de Deus em meio a um contexto pagão (Dn. 1.6). Existem pessoas, como Moisés e Paulo, que são separadas por Deus de acordo com seu propósito, a fim de cumprir Seus desígnios e fazer Sua vontade (At. 7.22; 17.27; II Tm. 4.13). Os jovens da igreja não devem fugir da responsabilidade estudantil, devem se esforçar e se destacar diante dos colegas, pois Deus poderá utilizar-se dessa preparação para cumprir algum propósito (Dn. 1.20). Mas é necessário que se mantenham firmes em suas convicções, não fazendo concessões em relação aos seus princípios. Daniel se encontrava em um grande centro cultural, mas não permitiu ser aculturado, antes aproveitou aquela oportunidade para revelar o Deus de Israel aos babilônicos. Os jovens cristãos que adentram as universidades devem se esforçar, e darem o máximo para se destacarem, mas não podem esquecer-se da Palavra, e não trocarem a revelação pelas filosofias que ali imperam (Cl. 2.8).  

2. A ASCENÇÃO DE DANIEL NA BABILÔNIA

Daniel e seus amigos se encontravam no palácio do rei da Babilônia, sendo treinados para receberem a cultura daquela nação. O objetivo daquele treinamento era fazer com que os jovens se coadunassem a forma de pensar babilônica. Mas Daniel não entrou na forma daqueles que queriam moldá-lo de acordo com os padrões daquela cultura, ele sabia que estava sendo testado, e tomou a decisão de ser aprovado por Deus (II Tm. 2.15). Devemos lembrar das palavras de Paulo aos crentes de Roma, para que esses não se deixassem transformar em conformidade com o pensamento deste século, mas que experimentassem a boa, perfeita e agradável vontade de Deus (Rm. 12.1,2). Isso quer dizer que somos chamados, como Daniel, para viver em santidade, não apenas moralmente – fazendo a distinção entre o certo e o errado, mas também a por em prática os ensinamentos que recebemos do Senhor. No que tange à espiritualidade, os cristãos devem se relacionar com Deus, através da oração e meditação na Palavra de Deus. Somente com a preparação que vem de Deus seremos capazes de enfrentar as situações adversas, até mesmo quando leis injustas forem criadas a fim de perseguir os cristãos (At. 5.29). Há situações que a desobediência às leis humanas são permitidas, principalmente quando essas se opõem à Palavra de Deus. As parteiras hebreias (Ex. 1), os apóstolos (At. 4), e até mesmo Jesus (I Pe. 2.13-25) mostram que entre a Palavra de Deus e a dos homens devemos optar pela primeira. No entanto, se possível, conforme expressou Paulo, devemos buscar viver em paz com todos, inclusive com as autoridades (Rm. 12.18). Esse exemplo nos foi dado por Daniel, que se dedicou ao máximo para conciliar seus valores com os padrões estabelecidos pelo governo babilônico.

3. A FIRMEZA DE DANIEL NA BABILÔNIA

Em Dn. 1.18-20 está escrito que o próprio Nabucodonosor decidiu fazer um teste a fim de averiguar o desenvolvimento dos jovens súditos do palácio. Daniel foi aprovado naquele teste, e o principal, suas convicções fizeram a diferença. Como cristãos, devemos buscar espaços na sociedade, os jovens devem se dedicar, se prepararem para os concursos. Ao mesmo tempo, devem buscar ter uma vida cristã equilibrada, conciliando os estudos com a vida devocional. O problema de alguns jovens em contextos universitários é o extremismo. Alguns deles enfocam demasiadamente o espiritual e se esquecem de cumprir suas responsabilidades estudantis. Outros enfatizam tanto o material que acabam se distanciando da fé que uma vez professaram. Daniel viveu vários anos na condição de exilado, mas Deus o preservou no ministério. Como estadista não fez concessões em relação aos seus princípios, tornando-se um exemplo para todos aqueles que almejam a vida pública. Na época das eleições vários candidatos se apresentam às igrejas, e querem os votos dos fiéis simplesmente por ser evangélicos. O desafio deles não é apenas serem eleitos, mas principalmente permanecerem firmes em seus valores. Atentando não apenas para os aspectos morais do seu chamado, mas também espiritual, sem se esquecerem da responsabilidade social. Há políticos evangélicos que defendem apenas uma agenda moral, criticando o liberalismo em relação ao aborto, divórcio e homossexualidade, mas esquecem da pauta social. Além de não promoverem o bem social, ainda se envolve em atos de corrupção, subvertendo os cofres públicos, dinheiro que deveria ser investido em saúde e educação de qualidade. Mas Daniel, enquanto homem público, comprometeu-se com a causa divina. O chamado de Deus não é apenas para ocupar posição de status, mas para cumprir nosso papel, mantendo-nos fieis ao Senhor (I Ts. 5.23,24).

CONCLUSÃO

Como cristãos diante da cultura contemporânea, somos chamados a decidir qual lado tomaremos. Poderemos nos conformar com mundo, seguindo seus princípios, que fazem oposição à vontade Deus. Mas também podemos decidir ser transformados pela Palavra de Deus, levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo (II Co. 10.5). Se assim fizermos, seguiremos o modelo de Daniel, nos mantendo firmes no que tange à moralidade, não defendendo ensinamentos contrários a Palavra de Deus. E também não desprezaremos uma vida espiritual piedosa, investindo na produção do fruto do Espírito na vida cristã (Gl. 5.22).

BIBLIOGRAFIA

LOPES, H. D. Daniel. São Paulo: Hagnos, 2006.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

AULA 1 - DANIEL, NOSSO "CONTEMPORÂNEO"

INTRODUÇÃO
Estamos iniciando o último trimestre de 2014, durante as próximas lições estudaremos Daniel. Esse livro bíblico traz muitas orientações para a integridade moral e espiritual do povo de Deus. Na aula de hoje faremos uma apresentação panorâmica do livro, destacando sua atualidade em relação às questões morais e espirituais que a igreja tem enfrentado. Mostraremos que Daniel, de certo modo, é nosso “contemporâneo”, na medida em que se identifica com os mesmos desafios que a igreja precisa enfrentar em períodos de crise.

1. DANIEL, O PROFETA
Daniel, cujo nome significa “Deus é meu Juiz” foi um profeta (Mt. 24.15), do qual pouco podemos saber a respeito, além do que nos está registrado na Bíblia. Como Isaias era também membro da tribo de Judá, e ao que tudo indica, membro da família real (Dn. 1.3-6). Em razão do cativeiro judaico na Babilônia, Daniel teria sido levado muito jovem para essa terra (Dn. 1.4), no terceiro ano de Joaquim (605 a. C.), oito anos antes da ida de Ezequiel para esse mesmo cativeiro. Quando à Babilônia, Daniel foi colocado na corte de Nabucodonosor, tornando-se conhecedor da ciência dos caldeus, e se destacando em seu conhecimento diante dos demais sábios. Uma demonstração da superioridade do conhecimento de Daniel foi reconhecida na capacidade dada por Deus para interpretar o sonho de Nabucodonosor. Esse episódio deve ter ocorrido no segundo ano do seu reinado, por volta do ano 603. a. C. Alguns anos mais tarde sucedeu o segundo sonho de Nabucodonosor, também interpretado pelo profeta. Daniel foi levado a uma alta posição de poder durante o reinado babilônico. Ele passou 70 anos no cativeiro, tendo acompanhado o governo medo-persa, de Dario e Ciro. Justamente durante esse governo o profeta de Deus foi lançado na cova dos leões, por causa da sua fidelidade a Deus. Daniel nos deixou um legado de fidelidade a Deus, mesmo nos períodos de crise moral e espiritual. O livro de Daniel se acha dividido em duas partes (1) histórica e (2) profética, na primeira parte Daniel é apresentado em terceira pessoa; na segunda parte ele mesmo narra os episódios. A seguir destacamos os princípios assuntos: 1) Daniel e seus companheiros na corte de Nabucodonosor; 2) o sonho do rei com respeito à grande imagem, simbolizando quatro reinos; 3) a fornalha de fogo na qual são lançados os companheiros de Daniel; 4) o sonho de Nabucodonosor no qual foi vista e uma grande árvore; 5) o banquete suntuoso e profano de Belsazar; 6) Daniel é lançado na cova dos leões por causa da sua fidelidade a Deus; 7) visão dos quatro grandes animais que subiam do mar, e seu juízo diante do Ancião de Dias; 8) visão do carneiro com dois chifres, ferido pelo bode, que tinha um chifre entre os olhos; 9) compreensão da profecia de Jeremias (Jr. 25.12; 29.10), quanto aos setenta anos das idolatrias de Jerusalém; e 10) outras visões de Daniel a respeito do futuro de Israel e das outras nações.

2. NOSSO “CONTEMPORÂNEO”
O cenário espiritual de Judá, nos tempos do profeta Daniel, era caótico, isso porque nos anos 608 a 597 a. C., Joaquim reinava em Jerusalém (II Rs. 23.34). Naqueles dias duas nações lutavam pelo controle da região, a saber, Assíria e Egito. Neco, rei do Egito, subira para batalhar contra o rei da Assíria (II Rs. 23.29, Josias, que era o rei de Judá, decidiu atacar o Egito, mas morreu na batalha de Carquemis, em 608 a. C. Neco, em resposta ao ataque, destituiu a Jeocaz, filho de Josias, tendo esse reinado apenas três meses, impondo pesados tributos a Judá, constituindo rei a Jeoaquim, irmão deposto de Jeocaz (II Rs. 23.31-35). Joaquim foi um rei ímpio, tendo este rasgado e queimado o rolo da Palavra de Deus, que continha as mensagens do profeta Jeremias (Jr. 36.20-26). De certo modo a situações política daquela época não é diferente dos desafios que temos enfrentado nos dias atuais. A Palavra de Deus está sendo desconsiderada, os governantes estão preocupados, a fim de agradar a determinados grupos, em retirar os princípios cristãos de pauta. Acompanhamos, na sociedade brasileira, um processo de descristianização do valores, e uma processo contínuo de secularização. Alguns sacerdotes estão fazendo conchavos com os políticos, a fim de tirarem proveito pessoal das iguarias que lhes são oferecidas. Os profetas de Deus, tal como Jeremias e Daniel, estão denunciando esses impropérios, e por isso estão sendo perseguidos. Como fez Joaquim com o profeta Urias, ao desagradá-lo com mensagens contrários, alguns governantes estão perseguindo, e se for o caso, matando os profetas de Deus (Jr. 26.20-23). Mas Deus acompanha os acontecimentos, Ele é Senhor da história, no ano 606 a. C., o cenário militar foi modificado, uma vitória de Nabucodonosor, da Babilônia, sobre Neco, consolidou esse governo como uma potencial mundial. Em 605 a. C., após várias incursões sobre Jerusalém, Nabucodonosor domina aquele local e leva cativo os nobres, dentre eles Daniel, para o cativeiro, o rei Joaquim rendeu-se sem resistência. A abominação tomou conta de Jerusalém, pois em 586 a. C., após dezoito meses de sítio, os exércitos do rei da Babilônia saquearam a cidade, destruindo também o templo. O reinado de Nabucodonosor durou o período de 43 anos, tendo sido uma período de desolação para o povo judeu, por se encontrar no cativeiro (Sl. 137.1-9).

3. IDENTIFICAÇÃO COM DANIEL
Daniel nos mostra como viver para Deus em temos de falta de integridade moral e espiritual, principalmente na juventude. Por meio dos profetas o povo de Judá foi advertido, Jeremias e Habucuque anteciparam que a Babilônia invadiria Jerusalém, e levaria seu povo cativo. O testemunho de Daniel inspira os crentes a viverem em santidade, e se aproximarem de Deus, ainda que a maioria relativize Sua palavra. Daniel estava diante de uma geração que estava colhendo os frutos que os seus pais haviam semeado (Dn. 1.2). Isso nos mostra que a apostasia espiritual não acontece de uma hora para outra, é resulta de uma negligência paulatina, um distanciamento sutil da Palavra de Deus. O povo de Israel, ao invés de confiarem na Palavra, estavam se fundamentando no templo (Jr. 7.7). Os templos são necessários, e importantes para as igrejas, mas é a Palavra que conduz às vidas pelos caminhos do Senhor. Um templo suntuoso não salvará uma igreja da ruína espiritual, o avivamento não depende de estruturas arquitetônicas, mas da dependência de Deus. Daniel nos inspira a continuar acreditando na intervenção divina, mesmo diante dos tempos difíceis, a despeito de suas perdas e das vicissitudes pelas quais passou, seu coração permanecia em Deus. Ao invés de murmurar pelas adversidades, o jovem Daniel buscou discernimento e aproveitou as oportunidades, para estudar na Universidade da Babilônia. Ainda que Nabucodonosor quisesse desintegrar a identidade dos jovens judeus, inclusive alterando os seus nomes, Daniel sabia quais eram suas raízes, e se matinha fiel aos seus princípios. Durante o período em que esteve naquela Universidade, Daniel equilibrou o seu tempo, de modo a não se deixar contaminar com as iguarias do rei, e dedicando tempo sua vida devocional diante do Senhor (Dn. 1.5). O homem de Deus sabia que não podia se deixar dominar pela aculturação, isto é, pelo domínio cultural dos babilônicos, aprendeu a tirar proveito do que era necessário, mas sem relativizar seus valores judaicos. O mundo pode tentar modificar os nossos nomes, mas não pode mudar nossos corações, como Daniel não podemos esquecer-nos de quem somos, e o propósito para o qual fomos criados.

CONCLUSÃO
Mesmo quando obteve honra em sua vida profissional, Daniel não se esqueceu de Deus. Após a conclusão da sua graduação, passou a servir no palácio de Nabucodonosor, mas sempre se manteve fiel aos seus princípios. Aqueles que fazem a vontade de Deus seguirão seu curso, mesmo depois da queda dos impérios, assim ocorreu com Daniel, que serviu até o primeiro ano de Ciro, rei persa, depois da queda da Babilônia. Deus está no comando das situações da vida daqueles que decidem viver para Ele, mesmo nos tempos de crise a mão do Senhor estarão sobre eles. O futuro está no controle de Deus, ao Seu tempo fará o que Lhe apraz, conforme Seus desígnios.

BIBLIOGRAFIA 

LAHAYE, Tim. Enciclopédia Popular de Profecia Bíblica. 5. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2013.
ZUCK, Roy (Ed.) Teologia do Antigo Testamento. 1. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2009.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Lição 3 - A Importância da Sabedoria Humilde

A IMPORTÂNCIA DA SABEDORIA HUMILDE
Texto Áureo Pv. 4.6 – Leitura Bíblica Tg. 1.5; 3.13-18



INTRODUÇÃO
Os cristãos do primeiro século enfrentaram perseguições, por causa disso alguns deles abandonaram a fé, e retornaram às práticas judaicas. Tiago, em consonância com o autor da Epístola aos Hebreus, conclama seus leitores a permanecerem firmes. O primeiro apela à sabedoria do alto, que se materializa na disposição para enfrentar a provação, sem negar a fé. Na aula de hoje estudaremos a respeito dessa sabedoria, que deve ser demonstrada, sobretudo, em humildade, na confiança em Deus, que é o provedor dessa sabedoria, diferente da humana ou diabólica.

1. SABEDORIA DO ALTO NA PROVAÇÃO
A falta de maturidade é uma demonstração de ausência de sabedoria, aqueles que não sabem lidar com as adversidades revelam infantilidade. Jó é um exemplo bíblico de sabedoria na provação, ao invés de blasfemar contra Deus, prostrou-se em terra em adoração, e disse: “nu sai do ventre da minha mãe, e nu partirei, o Senhor o deu, o Senhor o levou, louvado seja o nome do Senhor” (Jó. 1.20). Esse tipo de cristão está em extinção nos dias atuais, isso porque a ênfase no hedonismo está favorecendo um tipo de fé superficial, que beira à mediocridade, que não admite passar por situações adversas. Para Tiago a verdadeira sabedoria, tal como aquela expressa nos Provérbios, é prática e tem a ver com a convicção de fé, mesmo quando as coisas não acontecem do jeito que desejamos. O insensato, em Provérbios, é aquele que deixa de reconhecer suas limitações, que se fundamenta na autossuficiência, que acha que pode descartar Deus (Pv. 26.12). Existem esses até mesmo entre os que se dizem cristão, tais precisam pedir sabedoria para enfrentar os momentos difíceis, ao invés de negá-los. A palavra pistis em grego, geralmente traduzida por fé, traz nessa Epístola, a conotação de fidelidade. Para Tiago ter fé é mais do que acreditar, trata-se de uma disposição para enfrentar a provação. A demonstração da fidelidade resulta em obediência (Tg. 2.14), que não se deixa mover pelas circunstâncias (Tg. 1.6). Como fez Salomão, devemos pedir a Deus a sabedoria necessária para fazer a diferença entre a verdade e o engano (II Rs. 3.7-9). A sabedoria que o monarca recebeu era de Deus, não dos homens.  De vez em quando os cristãos são rotulados de ignorantes, e isso tem um fundo de verdade. Deus destrói a sabedoria dos sábios segundo o mundo, que fundamentam seus argumentos em axiomas. Por isso, para aqueles que não confiam nas promessas de Deus, a mensagem da cruz é totalmente absurda (I Co. 1.24-26). A loucura da pregação nos convida a confiar no Senhor, de todo coração e a não nos apoiar em nosso próprio entendimento (Pv. 3.5,6).

2. O VALOR DA SABEDORIA DO ALTO
A importância da sabedoria para o cristão é o próprio Jesus Cristo, nEle estão escondidos todos os tesouros da sabedoria (Cl. 2.3; I Co. 1.24).  O autor de Provérbios encerra em poucas palavras seu valor: “Como é feliz o homem que acha a sabedoria, o homem que obtém entendimento, pois a sabedoria é mais proveitosa do que a prata e rende mais do que o ouro [...] a sabedoria é árvore que dá vida a quem a abraça; quem a ela se apega será abençoado (Pv. 3.13,14,18). Essa sabedoria não é terrena, ou melhor não é deste mundo (Tg. 3.15), que é pura tolice, ao ser comparada com a sabedoria de Deus. A construção da torre de Babel é um exemplo do que pode fazer a sabedoria humana (Gn. 11.9). O projetos humanos tem causado muita desilusão, principalmente quando destituídos da orientação divina. A ciência tem trazido muitas contribuições para a sociedade, mas infelizmente tem servido mais para o mal do que para o bem. As grandes invenções estão a serviço dos interesses da minoria, pouco investimento tem sido feito na solução dos problemas sociais. O avanço do conhecimento não é proporcional à sabedoria, somos capazes de fazer viagens espaciais, mas não sabemos como conviver com nossos vizinhos. O otimismo da ciência, influenciado pelo Positivismo de Comte, está em declínio. A pós-modernidade é justamente a desconstrução dos valores cientificizados, até mesmo a confiança na educação está abalada. A formação acadêmica não é garantia de uma ética pautada no respeito ao próximo, sobretudo do temor a Deus, que é o princípio da sabedoria (Pv. 1.7). Para Tiago a sabedoria de Deus é espiritual, não é física, do grego psykikos, ou natural. Se diferencia também por não ser demoníaca (Tg. 3.15), os conhecimentos humanos podem ser projetos para a mentira (Rm. 1.18-25), para semear o ódio e a discórdia. A verdadeira sabedoria provém do alto, ela não é resultante apenas de lógica, mas da oração, de momentos de intimidade com Deus (Tg. 1.5). A palavra de Deus é o fundamento dessa sabedoria, pois ela nos torna sábios para a salvação (II Tm. 3.15).

3. A DEMONSTRAÇÃO DA SABEDORIA DO ALTO
A sabedoria que não provém de Deus é falsa, e se manifesta através da inveja que causa amargura (Tg. 3.14,16). A sabedoria dos homens, pautada no egoísmo, busca apenas o interesse próprio. Existem até aqueles que se ufanam da religiosidade, como faziam os fariseus dos tempos de Jesus (Mt. 6.1-18). O conhecimento bíblico acumulado não garante que o detentor é uma pessoa sábia.  Existem casos de pessoas que tem muito conhecimento, mas não são amorosos, é justamente o amor que equilibra o conhecimento, e revela sabedoria (I Co. 8.1). A ética do amor é a base da verdadeira sabedoria, os cristãos que são sábios amam, tanto a Deus quanto ao próximo (Mt. 22.37,38; I Co. 13). O sentimento faccioso é uma característica da  sabedoria meramente humana (Tg. 3.14, 26).  A palavra eritheia dá ideia de partidarismo, um dos sentimentos predominantes na igreja de Corinto (I Co. 1.10-13). Os cristãos que amadureceram na fé não vivem em disputas, não estão preocupados em conseguir espaço, não perseguem os holofotes. Essa é uma sabedoria vã, no sentido bíblico de vaidade, que passa, é efêmera, temporária (Ec. 1.1,2). É uma pena que muitas pessoas estão se digladiando dentro das igrejas por causa de espaço. As disputas políticas no contexto eclesiástico é uma demonstração de falta de sabedoria. A sabedoria do alto, que vem de Deus, nos conduz à mansidão, não se exaspera, não perde o controle (Tg. 3.13). A sabedoria do alto, que vem de Deus, nos impulsiona para a pureza. A santidade é uma marca do cristão que busca agradar o Senhor, que não se envolve com o mundanismo, que não ama as coisas do presente século (Rm. 12.1,2). A sabedoria do alto faz sossegar a nossa alma (Tg. 3.17), e nos dá a paz que o mundo desconhece (Jo. 14.27). Essa é uma paz que excede todo entendimento (Fp. 4.6,7), sendo resultante do fruto do Espírito (Gl. 5.22).

CONCLUSÃO
Vivemos na era do conhecimento, as pessoas estão envoltas de informações, algumas deles extremamente desnecessárias. Os cristãos, em meio às adversidades da vida, devem buscar a sabedoria de Deus, que vem do alto. Essa sabedoria está fundamentada no amor, na paz de Deus que excede todo entendimento. Além disso, ela é tratável, aberta à revelação de Deus, cheia de misericórdia, se preocupa com os necessitados. Essa, portanto, é uma sabedoria prática, que produz frutos, dignos de arrependimento (Mt. 3.8), demonstrada em imparcialidade, não se deixa cooptar pelas conveniências, não é fingida. Busquemos, pois, a sabedoria de Deus, que diferentemente da sabedoria do mundo, não produz problemas e resulta em bênçãos espirituais (Tg. 3.16-18).

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Lição 2 - O Propósito da Tentação

O PROPÓSITO DA TENTAÇÃO

Texto Áureo Tg. 2.17 – Leitura Bíblica Tg. 2.14-26



INTRODUÇÃO
Conforme estudamos na lição anterior, a Epístola de Tiago foi endereçada às “doze tribos”, provavelmente judeus cristãos do primeiro século (Tg. 2.1). Esses estavam passando por situações adversas, provações por seguirem a Cristo. Na verdade esse é o preço do discipulado (Mt. 16.24). Na aula de hoje destacaremos o aspectos das provações pelas quais os cristãos passam, bem como os objetivos e as possibilidades de vitórias sobre essas. Ao final esperamos motivar os irmãos e irmãs que são perseguidos por amor a Cristo a perseverarem na fé, até a volta de Jesus.

1. A TENTAÇÃO QUE É PROVAÇÃO
A palavra traduzida por tentação na Almeida Revista e Corrigida (ARC) em grego é peirasmós também significa provação. Nesse contexto essa palavra seria mais adequada, ao invés de tentação, considerando que os crentes daquele período estavam passando por perseguições por causa de Cristo. Nesse texto o termo peirasmós tem uma conotação positiva, diferentemente da palavra tentação, cujo significado é negativo. A provação aponta, de acordo com as instruções de Tiago, para um teste, que resulta em aprovação ou reprovação. Evidentemente as pessoas não querem sofrer, há até os cristãos que propõem um cristianismo isento de sofrimento. Tal ensinamento não tem respaldo bíblico, pois Jesus ensinou que no mundo teríamos aflições (Jo. 16.33). Paulo afirma que por muitas tribulações nos é necessário entrar no reino de Deus (At. 14.22). E alertou Timóteo que todos os que querem viver piamente em Cristo padecerão perseguições (I Tm. 3.12). Jó concluiu que o homem nasce para a tribulação como as faíscas voam para cima (Jó. 5.7). As causas das provas são diversas, não necessariamente elas provêm de Deus. Há pessoas que são provadas por causa da condição humana. Isso acontece porque somos humanos, e como tais nós passamos por enfermidades e desapontamentos, como qualquer outra pessoa, seja ela crente ou descrente. Existem provas também que resulta dos nossos pecados, mas essas não podem ser generalizadas, nem todas as pessoas sofrem por causa de pecados (Jo. 9.1,2; 11.4). Algumas pessoas são provadas porque tomaram uma decisão por Cristo. Nos dias atuais a perseguição predominante é ideológica, os cristãos estão perdendo espaço, até mesmo empregos e posições sociais. Tiago utilizou o termo poikilos que significa várias em grego, isso quer dizer que as provações têm fontes variadas, mas até essas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus (Rm. 8.28).

2. OS OBJETIVOS DAS PROVAÇÕES

Provações (1.2-18; 5.7-11). A igreja primitiva nasceu em uma época de terríveis dificuldades - lembre-se de que Tiago estava escrevendo a crentes que tinham se espalhado pelo mundo devido à perseguição. Assim, nâo deve ser surpreendente descobrir que um dos temas principais deste livro é como reagir a provações e tentações.
Muitas destas provações vinham de fora. Judeus fanáticos ou “zelosos”, como Saulo de Tarso antes de sua conversão, prendiam e matavam os seguidores de Cristo(At 6.8-7.60). O reconhecimento público de Cristo como Salvador e Senhor nâo levava à popularidade, ao poder, ou ao prestígio. Tiago também sabia das lutas que ocorriam internamente. Uma provação pode colocar à prova a fé dos crentes,causando dúvidas e desânimo e tornando-os suscetíveis a inúmeras tentações. E Satanás tenta usar os tempos difíceis para dividir a igreja. Assim, Tiago incentivou o seu novo rebanho a reconhecer a origem dos seus problemas - a sua natureza pecaminosa e o mahgno (1.13-16), a permanecer concentrado em Deus e em sua bondade (1.17,18), e a resistir aos ataques sutis de Satanás (4.7).

Quando somos provados, essas não são além das nossas forças, Deus sabe até onde somos capazes de suportá-las (I Co. 10.11). Por isso devemos saber que as provações são passageiras, elas não duram para sempre (Tg. 1.2). Existem pessoas que sofrem mais do que outras, e Deus tem seus propósitos em cada vida. Não podemos esquecer que Ele pode utilizar as provações com o fim pedagógico (Tg. 1.3,4). Deus é um dos poucos professores que primeiro entrega a prova para que os alunos extraiam a lição depois. Abraão foi chamado por Deus, mas antes precisou ser provado, a fim de mostrar seu compromisso com o Senhor. As provas de Deus objetivam nosso amadurecimento espiritual. Os cristãos mais imaturos são justamente aqueles que menos foram provados. As provas, quando resultam em crescimento espiritual, fortalecem a fé dos crentes. Como destaca Paulo, nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória (II Co. 4.17). Todos nós estamos “em construção”, e Deus está trabalhando em nossas vidas (Ef. 2.8-10). Assim Ele fez com José e Moisés, e está fazendo em muitos outros, inclusive em nós. O resultado da provação é a perseverança, a palavra grega é hupomene, que significa paciência, mais propriamente, firmeza diante das adversidades. Os crentes imaturos não conseguem esperar muito, se afastam do caminho na primeira adversidade que encontram. Por causa dessa impaciência Moisés matou o egípcio, sansão contou seu segredo a Dalila, e Pedro quase matou Malco. Ninguém deve temer as provas, nem mesmo aquelas que são permitidas por Deus. Jó reconheceu que inicialmente conhecia Deus apenas de ouvir, mas depois de provado teve uma percepção mais grandiosa da glória de Deus (Jó. 42.5).

3. A VITÓRIA SOBRE AS PROVAÇÕES
Os evangélicos influenciados pelo hedonismo moderno pensam que a vitória sobre a provação é justamente se livrar delas. Mas essa é uma realidade que não se concretiza para todos, somente para alguns, de acordo com a soberania de Deus. Há aqueles que somente obterão vitória das suas provas na eternidade, como aconteceu com os heróis da galeria de Hebreus 11. A vitória sobre as provações está justamente na fé, que é firme fundamento das coisas que se esperam, mas que não são visíveis (Hb. 11.1). Esse é o tipo de fé que Deus exige do Seu povo, não uma fé de barganha, alicerçada nas satisfações pessoais. Essa geração está adoecida pelo hedonismo, o prazer tornou-se a razão de ser, até mesmo entre os cristãos. Influenciados pela teologia da ganância, e pelo movimento pseudopentecostal, querem apenas as mãos de Deus, se distanciam da Sua face. A vitória que vence o mundo é a nossa fé (I Jo. 5.4), pistis em grego, que também pode ser traduzida como fidelidade. Sem uma fé compromissada é impossível agradar a Deus, os que dEle se aproximam devem ser fieis, independentemente das circunstâncias (Hb. 11.6). Jesus se dirigiu às igrejas perseguidas da Ásia Menor, mais especificamente para Esmirna, que passaria por provações, instruindo-a para que essa fosse fiel até a morte (Ap. 2.8-11). Carecemos de uma geração de crentes que não tenha receio das provações, que não se acomodem com o marasmo, e com essa filosofia hedonista. Os bem-aventurados, conforme expôs Jesus, não são aqueles que não querem sofrer. Justamente o contrário, os bem-aventurados são aqueles que são perseguidos por causa do nome de Jesus. Esses devem exultar, pois grande será no céu o galardão deles (Mt. 5.12). Enquanto não chegarmos ao céu, vivemos nesta terra sujeitos às provações, essas servem para nosso amadurecimento espiritual. Isso porque Deus está mais interessando em forjar nosso caráter do que nos fazer financeiramente prósperos. O objetivo do Senhor, através das muitas provações pelas quais passamos, é moldar nosso caráter em conformidade com Cristo, nosso Modelo (Gl. 4.19).

CONCLUSÃO
Os cristãos não estão imunes às provas, estamos sujeitos às mesmas condições dos descrentes. Por causa da nossa fé em Cristo podemos ser perseguidos, quando isso acontecer devemos exultar, pois sabemos que receberemos de Deus o galardão no céu. As provações pelas quais passamos nos alinham a fim de que sejamos moldados ao caráter de Cristo. Deus está construído nossas vidas, Ele está escrevendo nossa história. Mesmo nas situações adversas devemos saber que Aquele que começou a boa obra haverá de levá-la adiante, apesar dos pesares (Fp. 1.6).



Dúvidas e sugestões através do email: licoesbiblicasresponde@gmail.com

BIBLIOGRAFIA
LOPES, H. D. Tiago: transformando provas em triunfo. São Paulo: Hagnos, 2006.




sábado, 5 de julho de 2014

Lição 1 - TIAGO – FÉ QUE SE MOSTRA PELAS OBRAS

TIAGO – FÉ QUE SE MOSTRA PELAS OBRAS
Texto Áureo Tg. 2.17 – Leitura Bíblica Tg. 2.14-26



INTRODUÇÃO
A Epístola de Tiago, que será estudada ao longo deste trimestre, nos trará orientações a respeito do agir do cristão no mundo. Na aula de hoje introduziremos esse livro, considerando sua autoria, local, data e destinatário. Em seguida, destacaremos os propósitos da Epístola de Tiago, e ao final, apontaremos algumas instruções para os cristãos da contemporaneidade com base nesse texto bíblico.

1. EPÍSTOLA DE TIAGO
A Epístola de Tiago nem sempre foi compreendida pela igreja cristã, nem mesmo por alguns reformadores, que consideravam essa uma recaída no legalismo judaico. O próprio Lutero a criticava, argumentando que se tratava de “uma verdadeira epístola de palha, pois não é caracteristicamente evangélica”. Mas essa foi uma interpretação equivocada do sábio reformador, que não compreendeu o propósito do seu autor. Tiago, o autor da Epístola, é um dos quatro mencionados no Novo Testamento, sendo este o filho de José e Maria, portanto meio-irmão do Senhor (Mt. 1.18,20). Ele se tornou apóstolo de Cristo após testemunhar a ressurreição de Jesus, sendo considerado uma das colunas da igreja, além de ser líder influente em Jerusalém (At. 15.13-21; Gl. 1.19). O local da composição da Epístola é incerto, ainda que alguns estudiosos especulem que teria sido escrita em Jerusalém. A data provável deste escrito é entre 45 a 49 d. C., antes do concílio em Jerusalém (At. 15), sendo destinada aos cristãos judeus que residiam em comunidades de gentios fora da Palestina. Nas palavras do próprio Tiago, essa Epístola é destinada “às doze tribos que andam dispersas” (Tg. 1.1). A expressão “doze tribos”, nesse versículo é uma figuração dos israelitas daquela época, considerando que as doze tribos originais haviam sido desfeitas. Existem várias possibilidades de divisões dessa Epístola, apresentamos uma delas: Destino e saudação (Tg. 1.1); Provações e a maturidade cristã (Tg. 1.2-18); Cristianismo autêntico e suas obras (Tg. 1.19-2.26); Dissensões dentro da igreja (Tg. 3.1-4.12); Implicações de uma cosmovisão cristã (Tg. 4.13-5.11); e Exortações finais (Tg. 5.12-20). O versículo-chave da Epístola de Tiago certamente se encontra em Tg. 2.18: “Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras, mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras”. Mas há outros destaques, dentre eles: 1) a prática da Palavra de Deus (Tg. 1.22); 2) a religião pura e verdadeira (Tg. 1.27); e 3) o valor da oração do justo (Tg. 5.16).

2. O PROPÓSITO DA EPÍSTOLA DE TIAGO
A relação entre fé e obras é o ponto central da Epístola de Tiago, e está em consonância com o argumento do autor da Epístola aos Hebreus, defendendo que sem fé é impossível agradar a Deus (Hb. 11.6), e de Paulo, ao justificar que tudo que não é da fé é pecado (Rm. 14.23). Isso quer dizer que a fé exige ação, principalmente para aqueles que se deparam com provações (Tg. 1.2-4). Tiago revela, ao orientar a igreja, que a fidelidade faz diferença, por isso, ao enfrentarmos oposição, devemos nos considerar bem-aventurados (Tg. 1.12). Isso porque ao contrário do que é propagado na atualidade, as provas são instrumentos utilizados por Deus para o crescimento do cristão. Tiago adverte os irmãos da igreja para não se esquecerem da Palavra de Deus, especialmente diante das situações adversas (Tg. 1.22-25). Tiago também adverte a igreja em relação à distinção que se fazia entre as pessoas, principalmente no que tange à posição social (Tg. 2.1-6). A esse respeito a igreja pode influenciar a sociedade, na medida em que as pessoas se respeitam mutuamente, e se aceitam como irmãos e irmãs em Cristo, independentemente da condição socioeconômica. Deus exige fé, mas essa não pode ser atestada sem as obras, como testemunho para as pessoas. O objetivo de Tiago é justamente apontar a demonstração da fé, que acontece somente pelas obras. Evidentemente ninguém é salvo pelas obras, a salvação é pela graça, por meio da fé, não das obras, para que ninguém se glorie (Ef. 2.8,9). Por outro lado, como assume o Paulo no mesmo texto, fomos criados para as boas obras, para que andássemos nelas (Ef. 2.10). As pessoas que nos observam, e o próprio Deus, verão as nossas obras, como demonstração de fidelidade (Tg. 2.14-18). Jesus, antes mesmo de Tiago, destacou que os crentes são sal da terra e luz do mundo (Mt. 5.13) e que nos tornamos conhecidos através do frutos (Mt. 7.20). O controle da língua é fundamental na demonstração da fé do cristão, por isso os crentes devem ter cuidado, pois se “essa é inflamada pelo inferno” (Tg. 3.8). Ao invés de usar a língua para difamar, ou mesmo para murmurar, devemos orar a Deus, mas é preciso orar com sabedoria, não apenas para satisfazer nossos desejos egoístas (Tg. 4.2). Para o autor, os crentes não podem pactuar com o mundo, tornar-se amigo do mundo, significa ser inimigo de Deus (Tg. 4.4), antes devemos confiar no Senhor, que está no comando de todas as coisas (Tg. 4.13-15). Por fim, Tiago destaca o valor da igreja em comunidade, inicialmente na confissão dos pecados, e na oração uns pelos outros (Tg. 5.16).

3. INSTRUÇÕES DA EPÍSTOLA DE TIAGO
A partir das instruções de Tiago aos crentes primitivos, concluímos que essa epístola, ao contrário do que afirmou Lutero, não é “uma epístola de palha”. Tiago continua atual, e traz uma alerta para os crentes deste século. Em sua Epístola nos conclama a um cristianismo autêntico, fundamentado não apenas na doutrina, mas também voltado para a prática. A igreja cristã precisa avaliar-se continuamente a partir dessa mensagem. A doutrina bíblica da salvação demanda um ato de fé, uma convicção no sacrifício de Cristo na cruz do calvário (Ef. 2.8,9), mas também atitudes de fidelidade, que são demonstradas através de atitudes, condizentes com o evangelho de Jesus Cristo. Tiago não entra em contradição com Paulo, muito pelo contrário, seus posicionamentos se complementam. Em Rm. 3.28; 5.21; e Gl. 3.24 o Apóstolo dos gentios avalia a condição do homem pecador diante de Deus, mostrando a inutilidade da religião para a justificação. Em Tg. 2.24, o meio-irmão do Senhor ressalta a necessidade das obras, não apenas como demonstração perante os homens da salvação, mas também para nossa maturidade, na medida em que revelamos nossa fidelidade a Deus. Nesses tempos em que a igreja se volta para um cristianismo distanciado de um viver autenticamente cristão, faz-se necessário repensarmos, a partir da Palavra de Deus, quem de fato somos, e como devemos agir no mundo. A natureza da religiosidade precisa ser percebida à luz da orientação bíblica, caso contrário, nos tornaremos um mero ajuntamento de pessoas, debaixo de interesses meramente humanos. Os membros da igreja, como comunidade de fé, devem se relacionar uns com os outros, demonstrando atenção, especialmente os mais necessitados. Um cristianismo individualista, no qual as pessoas não se envolvem umas com as outras, nada tem a ver com aquele expresso por Jesus, ao edificar a Sua igreja. A igreja que é ekklesia sabe que está no mundo, que deve ser luz nas trevas, e apontar para Aquele que nos chamou para segui-Lo.

CONCLUSÃO
A Epístola de Tiago, escrita ainda no Século I, nos trás uma mensagem atual, que chama todo cristão à responsabilidade. A modernidade nos legou uma “zona de conforto”, até mesmo o cristianismo foi solapado por esse “modus vivendi”. Esse livro bíblico, que será estudado ao longo deste trimestre, abalará as estruturas de nossa sociedade acomodada. Oramos para Deus, que fale pela Palavra e o Espírito, a fim de que sejamos moldados à imagem de Cristo, e vivermos um cristianismo autêntico, em que nossas obras sejam condizentes com a fé que expressamos.

BIBLIOGRAFIA
DAVIDS, P. H. Tiago. São Paulo: Vida, 1997.
MOO, D. J. Tiago: introdução e comentário. São Paulo: 1999.